CAMINHO // 5 – O Caminho do Coração

“Quando caminhamos sozinhos estamos acompanhados apenas de nós mesmos, por isso podemos dar atenção às nossas memórias e, assim, ter novas ideias. […] Para Gros, caminhamos para nos reinventar, para nos dar outras identidades e possibilidades. Isso porque, na vida cotidiana, tudo está associado à função: uma profissão, um discurso, uma postura. E andar a pé é se livrar de tudo isso. Caminhe, então, simplesmente.” – Ana Holanda sobre Frédéric Gros.

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Acordei e, ainda meio desnorteada, dei o primeiro abraço de feliz aniversário na Mãe. Todos no albergue já estavam de pé, então só nos restou arrumar nossas coisas e partir.

É sempre especial poder estar junto nos aniversários. Depois desse tempo fora, parece que fica cada vez mais raro estar presente nessas pequenas alegrias e celebrações de amigos e familiares que, ao meu ver, contém muito do que considero a alegria da vida.

Escolhemos um cafézinho gostoso que ficava de frente para a catedral de Burgos. Comemos bem, com direito a croissant, suco de laranja e cappuccino, cantamos os primeiros parabéns do dia e presenteei a aniversariante com dois pins para a mochila – um de uma peregrina e outro da concha guia do Caminho. Se eu desse algo muito mais pesado do que isso seria um “despresente”.

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Dia 17 de abril também foi o primeiro dia de caminhada do Oliver. Animadas com o novo companheiro, falamos sem parar, nos fizemos das experts do Caminho e ele, por sua vez, parecia um playboyzinho com as roupas e botas novas impecavelmente limpas.

Confesso que, apesar de feliz, fiquei confusa com a chegada do Oli. Não sabia muito o que esperar e supunha que uma nova presença mudaria completamente a dinâmica das caminhadas. Já de início foi um susto: ele estava tão hi-tech, informado das notícias e com a cabeça no trabalho e eu, por outro lado, já não sabia mais onde terminava eu e começava a estrada e só queria saber de filosofar sobre a vida e o existir. Não que isso não ocorra na vida real, mas lá essa diferença foi elevada à milésima potência.

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O céu estava limpo, sem nenhuma mísera nuvem à vista. Esse ponto merece destaque: Mamis ganhou de presente o dia mais lindo que tínhamos presenciado até então. Olhando para o céu azul nem dava para acreditar que já tínhamos passado por tanta tormenta.

Caminhamos até a Ermita da Medalha Milagrosa, uma capela feita em pedra e gelada pra xuxu no meio do nada. As duas freiras bem velhinhas que ficavam ali recebendo os peregrinos eram o carinho em pessoa. Isso foi outro presente. Insistiram para que deixássemos nossas mochilas e descansássemos um pouco. Contei que era “el cumple de mi mama” e quando ela se aproximou, uma das freirinhas deu um parabéns muito amoroso e especial, olhando fundo nos olhos e dizendo palavras que fizeram nossos olhos se encherem de lágrimas. Que benção.

Decidimos caminhar “apenas” 21km nesse dia, na promessa que compensaríamos nos próximos. Paramos antes de almoçar e consegui encomendar um bolo surpresa no albergue que passaríamos a noite. Compramos vinho e alguns ingredientes para fazer um jantar e o Oliver trouxe balões e enfeites e fizemos uma festinha. Foi um dia cheio de amor.

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Tínhamos um objetivo concreto para os próximos dias: recuperar o tempo perdido e chegar a Carrión de los Condes para ficar no tão esperado albergue das freirinhas cantoras. Recalculamos a rota e decidimos que seria justo caminhar 30km em um dia e 38km no dia seguinte para atingir a meta. Mas, como diz uma querida amiga, “Se você quer ver Deus dar risada, conte seus planos para Ele”.

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Saímos cedo e o silêncio na vila era apenas quebrado pelos passos suaves das botas dos peregrinos na estrada de chão. Na saída da cidade vimos um nascer do Sol dos mais lindos das nossas vidas. Saletinha caminhava com os balões de aniversário amarrados na mochila exibindo seus 55 de pé na estrada completos num fim de mundo da Espanha. O céu continuava limpo e o meu joelho deu os primeiros sinais de dor.

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No fatídico 15o dia – que marcou e mudou o rumo da nossa viagem –  saímos de Ítero del Castillo e paramos em um recanto chamado “En el Camino” e comemos o melhor bocadillo (sanduíche na baguete) de omelete com requeijão da vida. Foi a melhor comida de todo o caminho, pasmem. Repetimos 3 vezes porque comida boa não se come por 3 euros todo o dia e dificilmente voltaríamos lá nessa encarnação. Uno más, por favor!

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Logo na primeira cidade paramos em uma farmácia na tentativa de encontrar algo para salvar o meu joelho direito que estava em frangalhos depois dos 30km do dia anterior. Com umas pomadas, joelheira de contenção e remédios, seguimos. E seguimos. E seguimos. E quando finalmente encontrei uma placa, ainda faltavam 18km.

Queríamos muito descansar, mas nosso objetivo de chegar no albergue das freirinhas falou mais forte. Caminhamos sob o sol forte e entendemos que muito calor é ainda mais difícil do que o frio e chuva. Depois de 9 horas de suplício já não sabíamos de onde tirar energia e eu já não conseguia dobrar a perna. Nos últimos 5km fomos cantando Tim Maia, Rita Lee, Secos e Molhados e fazendo coreografias para ver se o tempo passava mais rápido. Finalmente chegamos em Carrión.

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Encontramos as irmãs do “Albergue Parroquial Santa Maria” pela cantoria que ecoava pelas ruas. Quando chegamos lá, nos disseram que os quartos estavam lotados e que não poderíamos ficar ali. Parecia um roteiro de filme barato. Fizemos 38km para chegar ali para ter que dormir em outro lugar? Eu queria chorar mas só conseguia rir de nervoso.

 

Vendo nossa cara de tristeza, as irmãs nos chamaram para entrar e cantar junto. Depois de Amazing Grace, Ave Maria e várias outras músicas, elas abriram para os peregrinos e o o Oliver tocou e nós cantamos Meu Erro. Talvez aí ele já tivesse percebido nossa mancada.

Na hora de levantar para procurar o outro albergue, a Mãe sentiu uma dor muito, muito forte na parte de cima da perna. De uma hora para a outra ela não conseguia mais andar. Carregamos ela e a mochila até o albergue Espiritu Santo e depois de algumas horas vimos que não era uma simples dor muscular.

De cadeira de rodas, levamos ela até o pronto socorro onde  deram injeções para a dor e nos recomendaram pegar um ônibus para ir a outra cidade maior fazer exames. Ela não conseguiria andar tão cedo, disse o médico. Parecia que tinha estirado o músculo e necessitaria de uma a três semanas de repouso – tempo que nós definitivamente não tínhamos para esperar.

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Depois de uma noite mal dormida, acordamos e percebemos que a situação não estava nada melhor. Ela não conseguia nem caminhar até o banheiro, imagina então andar vários quilômetros todos os dias. A Ir. Maria Antônia, responsável do albergue, nos deixou passar o dia e uma noite extra lá para que pudéssemos descansar e resolver o que fazer. Eu e o Oli sentamos na cama da Mãe para conversar mas ninguém queria dizer o que todos já entendiam: nosso Caminho terminava por ali.

Eu e o Oliver começamos a buscar as passagens para voltar para Barcelona. Se tudo desse certo, poderíamos voltar em alguns meses para fazer a metade que faltava. Mas a Saletinha não se dava por vencida. Pediu que a gente esperasse só um pouco, porque ela queria seguir o caminho do coração.

E o caminho do coração dizia a ela para continuar.

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Retrospectiva 2018

#31/31:

Tenho a impressão de que vivi várias vidas diferentes nesse 2018. Se você acha retrospectivas chatas, pode pular essa aqui. Reservei meu último textinho para contar o porquê desse ano ter sido um ano e tanto para mim – e também deixar registrado pra nunca esquecer.

Janeiro: Na nossa primeira manhã de 2018, acordamos em uma cabana que armamos na sala do nosso apêzinho em Barcelona. Fazia frio e passamos um mês quieto e solitário, trabalhando e fazendo maratona de séries nas horas vagas. Pra não dizer que não teve diversão, fomos para as montanhas em um final de semana ver a neve e fazer snowboard.

Fevereiro:  Saí da Danone e poucos dias depois fomos para a Indonésia, Singapura e Bankgok. O Oliver foi convidado para dar uma palestra lá e acabamos adiantando um grande sonho nosso que era conhecer a Ásia. Caí de moto e ganhei uma cicatriz que é a lembrança oficial da cidade que ganhou meu coração (e onde fui pedida em recasamento) – Ubud, Bali. Foi a viagem mais incrível que fiz até hoje.

Março: Voltamos para BCN e passei um mês curtindo a cidade, cozinhando e lendo como jamais tinha feito. Trabalhei como voluntária na Future Funded e organizei nosso roteiro para o Caminho.

Abril: Eu e minha Mamis saímos da França rumo a Santiago de Compostela. Algumas semanas depois, o Oliver se juntou a nós. 800km e 30 dias depois, chegamos ao nosso destino com muita história pra contar.

Maio: Comecei a trabalhar na agência e nós (quando digo nós, leia eu + meu fiel escudeiro Oliver) recebemos os primeiros visitantes do ano – o Demir e a Bruna . Comecei um curso de culinária vegana e no final do mês o Gustavo anunciou que tinha achado um novo apartamento para morar e sairia de casa. Foi nossa primeira despedida.

Junho:  A Amandinha e seu TCC se mudaram para o ex-quarto do Gu e, junto com a Copa do Mundo, chegaram a Thais, Lu Paiva, Marcela, Nanda e o Thiago de mala no meio da praia de Barceloneta. Todo mundo reunido lá em casa. No meio de tudo isso saiu meu primeiro evento da vida, um desafio e tanto.

Julho: Perdemos o hexa mas fomos no show do Pearl Jam, pegamos muita praia e fizemos stand up paddle pela primeira vez. Teve também a memorável despedida da Amanda.

Agosto: Nossa pequena voltou para o Brasil e o Igor veio assumir o papel de terceiro roomie das Ramblas 16. Encontramos a minha prima/irmã Dani em Paris e vivemos 5 dias inesquecíveis. Voltamos para juntas para Barcelona e fomos nas Fiestas de Gracia, Montserrat e Costa Brava – só desaceleramos porque ela pisou em um ouriço e não conseguia mais andar largas distâncias. No final do mês, descobrimos que minha mãe estava com câncer e decidimos antecipar nossa volta ao Brasil. Ainda em agosto, conhecemos o sul da Espanha e o Algarve com minha querida Madri e sua amiga, mas a cabeça já estava a mil com a mudança.

Setembro: Foi o mês de nos despedirmos da nossa amada Espanha. Deixamos nosso lar, nossas plantinhas e os amigos queridos. Deixei também uma grande parte de mim. Ao chegar em terras brasileiras, fomos maravilhosamente recebidos pela família e amigos e nos mudamos para o apartamento 1001 no centro de Curitiba.

Outubro: Foi o mês do encontro do Amor da ALÉM House, o mês em que o meu irmão passou no vestibular de medicina e o mês em que minha mãe fez sua cirurgia e eu fiquei de enfermeira oficial.

Novembro: Fomos para a Chapada dos Veadeiros,  celebramos o casamento dos nossos afilhados amados Priscila e Lucas e teve também o Folia. Comecei a trabalhar no restaurante da Fer e aprendi muito muito muito.

Dezembro: Escrevi um texto por dia. Isso significou o mundo pra mim. Organizamos workshop de numerologia, a Gabi e o Pepe noivaram e conseguimos reunir toda a família para celebrar o Natal. Terminei o ano em Floripa, comemorando a vida ao lado daqueles que mais amo.

Foi um ano feito por pessoas, lugares e experiências únicas. Obrigada por tanto, 2018. Que o ciclo que vem por aí continue me surpreendendo e me fazendo crescer assim.

FELIZ 2019, GENTE! #desafio31diões

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Café Passado

Em outros tempos, acordava com o cheiro do café entrando por debaixo da porta do quarto, pelo buraco da fechadura, gentilmente anunciando o início do dia. Vinha acompanhado pela trilha sonora do jornal da manhã que meus pais, religiosamente, assistiam antes de sair para o trabalho.

Apesar do bom cheiro, o café passado não cai fácil no gosto da gente. Sejamos justos, é difícil tomar o lugar do Leite-com-Nescau. Há quem prefira Toddy e outros, de sanidade questionável, Nesquik de morango. Mas diversidade é bom e a gente gosta. Até ia de café com leite e muito açúcar quando o achocolatado acabava e não tinha batida na lata que fizesse cair mais pó dali. Nem era tão ruim assim, o tal do café. Mas foi só mais bem mais tarde, no primeiro estágio, que ele mostrou seu real valor.

Todos os dias depois do almoço, a Tia Alzira trazia o café com leite numa xícrinha para nós. Dedicada, ela sabia exatamente como cada um gostava. Puro, meio a meio, mais pra mais ou mais pra menos, com açúcar, com adoçante ou sem nada. Era o momento mais esperado da tarde.

A quantidade de cafeína foi aumentando pouco a pouco, não pelo apreço propriamente dito, mas mais para compensar a carga horária e as poucas horas de sono que a faculdade + estágio pediam. Foi chegando de mansinho até virar hábito. De manhã, no intervalo, depois do almoço, no meio da tarde.

Até que perdi a mão. Dei uma de Bela Gil e achei que poderia, por exemplo, substituir uma hora de sono por uma xícara a mais de café. E acreditava que dormir três ou quatro horas por dia seria o suficiente. Com o trabalho, faculdade, TCC e um momento muito doido na vida pessoal ganhei de presente uma gastrite nervosa e foi aí que meu melhor amigo se tornou o meio vilão. Nos separamos por recomendação médica mas a verdade é que nessas alturas me dava um enjoo sem fim só de sentir o cheiro dele. Mas, como eu já deveria imaginar, amor de verdade nunca vai embora.

Passado ano, as coisas foram se aquietando e o aroma do café passado foi ganhando espaço no meu coração novamente. Eu estava disposta a fazer do jeito certo dessa vez. Aprendi, finalmente, a coar sozinha, a usar a french-press e a cafeteira italiana.  Tirei o açúcar e entendi que duas xícaras por dia são suficientes. Todas as vezes que recebíamos alguma visita do Brasil e nos perguntavam se queríamos algo da pátria amada a resposta era “– Não precisa de nada não, mas se quiser trazer um pacote de café…”. E assim mantivemos aceso o fogo da paixão.

Aos poucos troquei o mais suave pelo mais intenso e os cappuccinos por expressos depois do almoço. Sofri com os cafés frios e aguados de Barcelona mas em troca descobri o carajillo, um encontro de almas entre o expresso e o licor Baileys, dei match com o cortado (expresso com um nadinha de leite) e, nessas voltas por aí, experimentei o kopi luwak (café do coco do bicho) conhecido como o melhor do mundo.

Café se tornou sinônimo de encontro com gente querida, papo bom e novas possibilidades. Um bom café é aquele que acolhe desabafos, gera ideias e nos faz dar uma pausa na nossa tão atribulada rotina.

Em um mundo de cold-brews, bulletproof coffee’s e white-chocolate-mochas, entendi que, apesar das infinitas combinações de grãos, torrefações, amargores, complementos e origens, o melhor café do mundo será sempre o café passado cujo cheiro entra carinhosamente por debaixo da porta, brindando o início de um novo dia pra se viver. Mas sem açúcar.

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Hola, Barcelona!

Às vezes sinto saudades do nosso primeiro mês morando em Barcelona. Era agosto de 2016 e tínhamos acabado de chegar do chamado “British Summer” – que também poderia ser chamado de “3 dias de calor e acabou” – e estávamos completamente apaixonados pelos dias de sol, pelas as altas temperaturas e empolgados com todas as coisas novas para explorar.

Alugamos um pequeno apartamento en el Raval, perto do museu MACBA. Nenhum carro passava direito pelas ruas estreitas do nosso novo bairro, mas elas eram, em compensação, cheias de pequenas quitandas, lojas de artistas independentes, skatistas e gente de todos os tipos e nacionalidades. Durante o dia até parecia um lugar civilizado mas, com o passar das horas, o negócio ia ficando louco.  Nossa rua era a “Carrer del Tigre”, uma sugestão para a selva na qual muitas vezes sentíamos estar.

Nosso apartamento ficava em um antigo prédio remodelado de 1800, com um quarto, um banheiro e uma sala de estar/cozinha com uma pequena varanda que dava para a rua. Era bem pequeno, mas grande o suficiente para acomodar todas as malas e sonhos que nos acompanhavam.

Roupas penduradas do lado de fora das sacadas, pessoas conversando e fazendo festa até tarde da noite, sirenes de polícia e/ou ambulância, gritarias e garrafas quebrando faziam parte de nossa cena diária. A impressão que dava era que estávamos vivendo em uma pequena favela, com as janelas dos vizinhos tão perto da nossa que podíamos ouvir a música, as brigas e até aconteceu de torcermos juntos durante as Olimpíadas.

Não tínhamos muitos compromissos. Além do nosso curso de espanhol pela manhã, o nosso único dever era com a praia. Claro que tinhamos uma ou outra coisa para acertar: juntar os documentos para conseguir o direito de residência e de trabalho (conseguir cita prévia era uma missão impossível), encontrar um apartamento para ficar ao longo prazo – ficar na Carrer del Tigre não era nem um pouco uma opção – aprender a língua e nos prepararmos para o início das aulas e trabalho. Mas nada que tirasse o sono.

Eu e o Oliver acordávamos não tão cedo, comíamos nossos cereais e frutas no café da manhã e saíamos para o intensivo de 5 horas de espanhol. Às 9 da manhã as ruas ainda estavam vazias, as lojas fechadas e as crianças ainda não tinham saído pra brincar. À tarde, almoçávamos algo leve, tirávamos uma siesta (os bons hábitos se aprendem rápido, hehe) e fazíamos nossa caminhada de 40 minutos até a praia de Barceloneta, de onde só voltamos depois do pôr-do-sol (não foi rápido recuperar a quantidade de luz solar que deixamos de absorver na Inglaterra).

Os dias eram longos, ensolarados e muito quentes. Era incrível ver uma cidade tão cheia de vida. As pessoas ficavam na rua até 2 ou 3 da manhã todos os dias. Crianças brincando descalças, jogando basquete, jovens bebendo e andando de skate (e fumando muita maconha) e os mercadinhos popularmente conhecidos como “Pakis” sempre abertos.

Andar por essas ruas antigas de Ciutat Vella muitas vezes me fazia sentir em um filme, e era muito especial poder chamar tudo isso de casa. A dificuldade de tentar me encaixar em um lugar ao qual eu não pertencia finalmente tinha desaparecido. Desde o nosso primeiro dia nas terras catalãs eu senti que de alguma forma que ali já era meu lar.

Nas primeiras semanas, já tivemos alguns de nossos melhores amigos nos visitando (Pri, Lucas, Fer, Dudu <3), compartilhando algumas das melhores memórias de verão que eu pra sempre guardarei. Fizemos bate-voltas para Costa Brava, Sitges (onde o Du pediu a Fer em casamento!) e, lentamente, começamos a descobrir os nossos lugares favoritos, bares, restaurantes e cafés da cidade.

Apesar de aproveitando intensamente as férias, eu estava curiosa para descobrir o que aconteceria conosco. Sabia que em breve uma vida real viria: meu mestrado começaria em pouco mais de um mês junto com a busca de um emprego, o Oliver começaria a trabalhar e nós teríamos uma nova rotina – ou ao menos era isso que eu achava. Era um pouco assustador e ao mesmo tempo uma grande benção ter mais uma oportunidade de começar tudo do zero em um novo lugar.

Nossa adaptação foi tranquila e sem grandes preocupações. Excluímos o inglês do vocabulário e começamos a usar o nosso Portuñol, que foi melhorando pouco a pouco. Continuamos na busca por um apartamento bom e de preço acessível, mas o mais importante, nos demos tempo para relaxar.

E foi isso. Finalmente conseguimos chegar no nosso lugar. É claro que imaginavamos que novos desafios chegariam uma hora ou outra, mas estávamos fazendo a nossa parte aproveitando bem todos os dias enquanto isso não acontecia. E como foi bom.

Barcelona foi o caloroso abraço que meu coração ansiava por muito tempo.

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De braços bem abertos

C.Â.N.C.E.R. Seis letrinhas que são capazes de virar várias vidas de ponta cabeça. Dá pra entender o porquê de até no zodíaco “ser de câncer” é sinônimo de muita emoção e sentimentos à flor da pele.

Ainda em Barcelona, eu voltava do trabalho em uma tarde quente de agosto quando minha mãe sugeriu fazer um Skype. Como ela já estava insistindo desde de manhã, comprei um sorvete e liguei pra ela do celular mesmo. Eu, sentada na minha rua preferida de toda a cidade com um sorvete de pêssego e ela, no Parque Barigui, debaixo das árvores. Sempre guardarei esse momento agridoce no coração.

Começamos a conversa e percebi que não era uma ligação de rotina. Ela contou que havia escolhido o parque por ser um lugar especial para uma notícia, digamos, especial. Sem muitos rodeios, me contou que há algumas semanas tinha sentido um nódulo na mama, feito os exames – nessa altura eu já tinha entendido tudo – e descoberto que era um tumor maligno. Em um primeiro momento, não me pareceu verdade. “- Ah não! Sério?!” e os meus olhos se encheram de lágrimas. Já os olhos dela, muito calmos e serenos, me transmitiram a maior tranquilidade do mundo. Ela explicou que havia feito várias consultas, exames e pré agendado uma cirurgia e só estava aguardando as aprovações do plano de saúde – tudo isso sem me contar nada, porque achava que eu provavelmente voltaria correndo para o Brasil. E achou certo.

É o tipo de notícia que a gente nunca acha que vai receber e nem faz muita ideia de como reagir quando acontece. Dá vontade de viver mais um pouquinho em um mundo onde nada disso aconteceu. De um ângulo, parece que o mundo inteiro vai desabar e de outro, tudo permanece exatamente igual. Apesar de me sentir congelada, os skatistas continuaram a fazer manobras, os carros a passar na rua e o sorvete a derreter com o calor.

Entendi da conversa que, de todos os casos possíveis, o dela parecia muito bom e as chances de cura eram de uns 95%. Como sempre fez os acompanhamentos certinhos, descobriu cedo, o tumor era pequeno e ela ainda é jovem e saudável, as perspectivas eram as melhores. Ela estava tranquila, feliz com a vida vivida e disposta a encarar de frente o novo desafio – mas ressaltou que não queria ser vista como vítima da doença ou com olhos de pesar por ninguém. Acho que uma parte importante do processo também é perceber o que, mesmo em uma situação difícil como essa, ainda somos muito mas muito privilegiadas em vários sentidos.

Terminamos a chamada e eu não sabia bem o que sentir. Minha mãe estava tão calma, positiva e confiante que eu não consegui cair no choro. Se ela pensava assim, como eu poderia ver de outro jeito? Lembro de termos dito algo como “já que a doença precisava ser vivida, que ao menos a gente consiga aprender algo com ela”. Voltei pra casa caminhando e tentando assimilar a informação. Decidi aí que seria sempre positiva e que faria tudo por ela mas não utilizaria a doença como muleta mesmo quando fosse tentador.

Chegando em casa, liguei para a minha chefe, que saia de férias no dia seguinte, e disse que eu teria que adiantar em um mês a minha volta ao Brasil. Sabia que a Saletinha não estava correndo risco de vida mas, quando quer que fosse a cirurgia, eu gostaria de estar ao lado dela. É engraçado como esses momentos nos mostram quão relativas e insignificantes algumas coisas são. Não duvidei nem por um minuto da decisão de largar tudo e voltar para casa.

Os dias que seguiram foram uma loucura. Como não poderia ser diferente, adiantamos as passagens e começamos a contagem regressiva. Em menos de dez dias iríamos embora do país e tínhamos uma viagem de uma semana marcada, um apartamento para entregar para a imobiliária, contas para fechar e handover no trabalho. Hoje vejo que toda essa correria foi como tirar rápido o Band-Aid que foi deixar Barcelona.

Mas olha como as coisas são. Nesse ano mesmo a gente conseguiu realizar nosso sonho de fazer o Caminho de Santiago, eu vivi tudo que queria viver fora do Brasil e parece que o Universo estava só esperando o momento certo onde estivéssemos prontas e abertas para receber essa doença que veio sim, para nos ensinar algo. Eu sou muito grata por poder estar junto da minha família e totalmente disponível de corpo e alma para eles. Toda experiência é um presente, depende só da maneira como a recebemos.

 

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#4/31

Há umas duas semanas mais ou menos, meus pais foram viajar e o João Antônio ficou sozinho em Curitiba.
Na terça-feira, combinamos de nos encontrar no cursinho onde ele estuda, sair jantar e depois dormir lá em casa. Como eu já tinha marcado com a Lu e Amandinha uma ida na meditação no Projeto X perguntei, sem muita esperança, se ele gostaria de ir junto e, para a minha surpresa, ele topou de primeira.

Sempre achei engraçada essa ideia de ser a referência de alguém para qualquer coisa, mas quando se é irmã mais velha isso acaba acontecendo. Me lembro de quando brócolis era o único vegetal que eu gostava e, de repente, minha versão masculina de 6 anos passou a ser fã também. Lembro do orgulho quando ouvia ele cantarolando Arctic Monkeys no outro cômodo ou chorando de rir de algum meme que mandei. Mas, quem tem irmão sabe que não é sempre assim.

Sabendo do bem que me faz a meditação, fiquei muito empolgada e torcendo para que ele gostasse ou, sei lá, sentisse pelo menos alguma coisa boa. Tentei não criar muitas expectativas, porque também sei que precisamos estar bem abertos para entrar nas vibes meditativas e, mesmo assim, tem vezes que é difícil.
Fechamos os olhos.

O tema da meditação naquele dia era gratidão, e a reflexão mexeu muito comigo. Já tínhamos sido avisados no início que possivelmente algumas pessoas teriam vontade de chorar e/ou gargalhar. Eu, como esperado, chorei bastante. Foi a meditação com a qual eu mais me conectei até hoje. Sei que a gente não deve ficar pensando em muita coisa nessas horas, mas eu realmente estava curiosa para saber o que o Johnny estava achando disso tudo.
Quando abrimos os olhos e as luzes se acenderam, vi que ele também tinha se emocionado e chorado suas lágrimas. Depois ele me contou que, durante uma vida de idas na igreja, nunca tinha sentido nada parecido.

Saímos jantar e ele foi a primeira pessoinha a se hospedar no nosso novo apê. Na manhã seguinte, fiz umas panquecas de café da manhã e deixei ele no cursinho. Foi por esses momentos tão significativos disfarçados de corriqueiros que voltei.

Hoje, fomos juntos no Projeto X outra vez 🙂

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#3/31 É sempre bom lembrar

[texto de 11 de maio de 2017]

“Esse aqui é um recado para mim mesma.

Quando você voltar a morar no Brasil, demore o tempo que for, tenho certeza que vai sentir falta de muitas coisas do lado de cá – desse jeito nostálgico e melodramático que você tem.

Vai sentir falta da praia, de fazer tudo a pé, da segurança. Vai dar vontade de comer os pratos preferidos, viajar barato para outro país no final de semana, das coisas legais do trabalho.

Haverão dias onde você vai desejar estar aqui, longe de tudo e todos, livre pra fazer o que bem entender na hora que for. Vai dar vontade de viver só mais um dia sob o Sol Mediterrâneo, falando espanhol e morando nesse apartamento nas Ramblas que pouco a pouco você fez lar. As inesgotáveis opções de restaurantes, os festivais, as corridas na beira da praia, os museus, as Fiestas de Gracia, as ruas estreitas do Born e os quase seis meses de verão são, sem dúvida, dignos de uma saudadinha.

Mas é importante que você se lembre também dos dias de frio, da solidão e da vontade de estar perto da família e amigos. Das vezes que faltaram abraços, colo, festas e as melhores companhias do mundo (que estão aí). Que teve saudades de casa, da cultura e do sorriso brasileiro. Do abraço de mãe, do feijão com arroz, de falar português. Da música ao vivo, das belezas naturais e da nossa gente simples. Do sentimento de ser e pertencer a algum lugar.

E você já sabe disso, como prova esse texto-recado vindo direto do passado. São os grandes trade-offs da vida, né não?  Então me promete uma coisinha: já que você e eu sabemos que o tempo não vai nem volta, aproveita e curte o que tem pra hoje, que, no final das contas, é o melhor jeito de ser feliz.

Eu vou fazendo o mesmo por aqui. É sempre bom lembrar.”

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