É sempre bom lembrar

[texto de 11 de maio de 2017]

“Esse aqui é um recado para mim mesma.

Quando você voltar a morar no Brasil, demore o tempo que for, tenho certeza que vai sentir falta de muitas coisas do lado de cá – desse jeito nostálgico e melodramático que você tem.

Vai sentir falta da praia, de fazer tudo a pé, da segurança. Vai dar vontade de comer os pratos preferidos, viajar barato para outro país no final de semana, das coisas legais do trabalho.

Haverão dias onde você vai desejar estar aqui, longe de tudo e todos, livre pra fazer o que bem entender na hora que for. Vai dar vontade de viver só mais um dia sob o Sol Mediterrâneo, falando espanhol e morando nesse apartamento nas Ramblas que pouco a pouco você fez lar. As inesgotáveis opções de restaurantes, os festivais, as corridas na beira da praia, os museus, as Fiestas de Gracia, as ruas estreitas do Born e os quase seis meses de verão são, sem dúvida, dignos de uma saudadinha.

Mas é importante que você se lembre também dos dias de frio, da solidão e da vontade de estar perto da família e amigos. Das vezes que faltaram abraços, colo, festas e as melhores companhias do mundo (que estão aí). Que teve saudades de casa, da cultura e do sorriso brasileiro. Do abraço de mãe, do feijão com arroz, de falar português. Da música ao vivo, das belezas naturais e da nossa gente simples. Do sentimento de ser e pertencer a algum lugar.

E você já sabe disso, como prova esse texto-recado vindo direto do passado. São os grandes trade-offs da vida, né não?  Então me promete uma coisinha: já que você e eu sabemos que o tempo não vai nem volta, aproveita e curte o que tem pra hoje, que, no final das contas, é o melhor jeito de ser feliz.

Eu vou fazendo o mesmo por aqui. É sempre bom lembrar.”

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Outono

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Depois de longos meses de verão, com sol forte das seis da manhã às nove e meia da noite, setembro chegou com novos tons para dar cor à nossa vida. O calor intenso foi nos deixando aos poucos e a brisa de outono veio com ar de renovação.

Ainda me é estranha essa ideia de começar um ‘novo ano’ em um mês que não seja Janeiro. Mas aqui funciona assim. Termina o verão, acabam as férias, começa o ano letivo. Gente nova chega na cidade aos montes e vários amigos vão embora. Parece até final de Malhação: o cenário continua mais ou menos o mesmo, mas só fica um ou outro personagem. Apelidamos esse recomeço carinhosamente de Segunda Temporada.

Nesse meio tempo, as portas da nossa casa estiveram bem abertas e vários amigos passaram por aqui, um atrás do outro, pra não perder o costume.

Na segunda metade do mês, em uma noite no meio da semana, fui buscar a Nanda na Plaza Catalunya. Sem dúvidas uma das visitas que mais esperei: depois de mais de dez anos de amizade, era a primeira vez que conseguiríamos fazer uma viagem juntas. Já era quase uma da manhã quando ela finalmente saiu do ônibus toda descabelada, com seus óculos tortos, chinelo de pelo, sorriso largo e alma reluzindo como sempre. Acon-chegou.

Receber pessoas aqui sempre me abre os olhos para detalhes da cidade que ainda não tinha reparado ou que já acostumei a ver. É um exercício interessante esse de tentar ver as coisas como se fosse a primeira vez, porque se for parar pra pensar, sempre é a primeira vez.

No meio de toda confusão dos quatro voos perdidos e outras tantas passagens alteradas, Nanda ficou só cinco dias por aqui. Apesar de curto, o tempo que passamos juntas foi aproveitado bem demais. Fomos aos meus bares e restaurantes preferidos, aos eventos da Fiesta de la Mercé, caminhamos pelos bairros antigos. Fomos à praia, museus e a um parque de diversões daqueles itinerantes – comemos algodão doce e passamos mal em um brinquedo desses que joga a gente pro alto sem cinto de segurança e todo mundo acha que tá ok, tá bacana, tá seguro. Fiquei com uns hematomas nas costelas, perdemos um pé do chinelo de pelo, saímos tontas.

Conversamos por horas de madrugada, em cafés, na rua. Fotografamos e usamos as roupas uma da outra, igualzinho como fazíamos aos 12 anos de idade. Quando eu achava que íamos parar para descansar, a Nanda sempre queria em algum outro lugar, fazer qualquer outra coisa – se pudesse ser de moto, melhor – S.O.S. Juro que tem vezes que não sei de onde vem tanta energia.

Teve um dia no meio desses todos que foi ainda mais especial. Era aniversário do Thomas, namorado da Ana. Fomos a um restaurante comer tapas e tomar cerveja. Chegando lá encontramos a Thais, uma amiga que estudei junto na facul e no colégio, que nos esperava. Não nos víamos há uns dois anos, segundo nossos cálculos.

A Thais veio fazer uma viagem pela Espanha, começando e terminando por Barcelona, passando por Mallorca, Madrid, Granada e Sevilla. Ela queria fazer uma viagem, seus possíveis acompanhantes estavam todos trabalhando e ela tinha o tempo e o dinheiro. A turnê da banda preferida dela, os Rolling Stones, passaria por aqui. Ela comprou o ingresso e as passagens e veio sozinha mesmo. Gosto de gente assim.

Conversa vai, conversa vem, entre tapas e beijos, cervejas e sangrias, saímos do restaurante e passamos em um bar de chupitos onde cada um pagou uma rodada de shots – fomos embora depois do oitavo, pelo bem de todos. Já não tão sóbrios, decidimos caminhar até uma festa, uns 2km dali. Pelas ruas largas do Eixample fomos dançando cantando e dançando hits antigos à capela – de Tim Maia a Smash Mouth.

Uma combinação improvável de pessoas em um desses momentos únicos, simples e inesperados.  A alegria e a energia eram tão boas que deu vontade de reviver o momento em looping eterno. Na UltraPop – melhor substituta do V.U até agora – dançamos até as pernas não aguentarem mais e a Thais (que tinha vindo direto do aeroporto) já não conseguisse ficar de olhos abertos. No dia seguinte, curamos a ressaca com um baita brunch de panquecas cheias de syrup e logo estávamos prontos para a próxima.

Em momentos como esse percebo como eu sou uma pessoa de pessoas (people’s-person definitivamente soa melhor). Nesses quase dois anos fora, aprendi a ser um pouco mais auto-suficiente, mas não tem nada que me faça mais completa do que estar ao lado de gente boa que eu amo.

Antes da Nanda ir embora, sentamos em um bar numa praça no meio do Raval, pedimos um café e eu abri meu coração mais uma vez. Coloquei um monte de coisas pra fora e, de repente, meio que como mágica, as coisas fizeram sentido. É engraçado como às vezes a gente precisa verbalizar os sentimentos para se entender melhor. Foi com essa clareza e com palavras de incentivo e carinho que nos despedimos.

Acho que uma das melhores partes de estar com amigos antigos é essa sensação de reencontro com as partes de nós mesmos que se ficaram esquecidas em algum canto. Obrigada Setembro.

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Primeiros 10km

Ontem foi um domingo especial.

Acordei cedo e, com muito esforço, consegui acordar o Oli uns minutos depois. Vestimos nossas roupas de corrida e as camisetas da “Cursa de la Mercè”, passamos um café no filtro e eu fiz um queijo quente pra nós. Colamos nossa dorsal com uma fita mequetrefe e, ainda meio sonolentos, pegamos o metrô para a Plaça d’Espanya.

Chegando lá, encontramos uns amigos e nos infiltramos entre as baterias dos 55’ e dos 60’. Por um momento, pensei que seria bem legal se conseguíssemos terminar os 10 Km perto desse pessoal. Batemos um papo esperando a largada e, com a contagem regressiva em catalão, começamos a correr devagarinho até passarmos pela surtida oficial.

Logo nos primeiros minutos nos perdemos dos nossos amigos, que dispararam com o pelotão da frente. Corremos tranquilos, começando com mais velocidade e baixando o ritmo aos poucos. A cidade estava linda, o sol forte e uma brisa fresca de início de outono. O som das passadas das quase 12 mil pessoas animava mais do que qualquer música.

No meio desse povo tinha gente de todo tipo: crianças, jovens, velhinhos, mães correndo com bebê no carrinho, cadeirantes e famílias inteiras – confirmando mais uma vez que a corrida é um esporte pra quem quiser.

Passamos pela Gran Via, Arco do Triunfo, Praça da Catalunya e terminamos de volta na Fonte Mágica de Montjuic. Dá pra dizer que o último km (na subida) foi o que pesou um pouco nas pernas. Mas após  1 hora e 1 minuto, cruzamos a linha de chegada.

Mapa do Trajeto

Como nas últimas semanas já estávamos fazendo treinos mais longos, não foi surpresa chegarmos inteiros ao final da prova. Ainda assim, acabamos com um gostinho de vitória – tendo feito nossos quilômetros mais rápidos até hoje. Essa é uma das coisas que eu mais gosto na corrida: a possibilidade que cada um tem de praticar do seu jeito, superando os seus limites e alcançando as próprias metas (e depois dobrando, rs) – sejam elas quais forem.

Felizes e suados após a chegada

Há bem pouco tempo, eu mal conseguia correr 500m sem ficar ofegante. Jamais acreditaria se me dissessem que correria 5km direto (é mais do que uma volta inteira no Barigui), imagina então os 10. E aí que vem a graça. A corrida me ensinou a acreditar mais em mim, a me alegrar com cada pequena vitória, a ouvir meu corpo e a respeitar meu próprio tempo. É uma terapia de autoconhecimento.

Ontem foi um dia especial porque pude comemorar essa pequena vitória – que pode ser muito ou pouco para os outros – mas que é minha e para mim. Que venham os próximos desafios, quilômetros e alegrias nesse esporte que ganhou meu coração.

Que bom que vocês chegaram!

Ontem fez um ano da nossa mudança aqui pra Barcelona, e a nossa comemoração não poderia ter sido mais apropriada: um jantar simples em casa, feito pela Carol, uma das nossas visitantes, para nós (eu, Oliver,Gu) e Alf. Apesar de termos conhecido a Carol e o Alf ontem mesmo, nossa jantinha foi digna de uma amizade de longuíssima data. A luz de velas, com vinho, boas risadas e “uns par” de boas histórias.

De todas as coisas incríveis que aconteceram durante ano aqui, essa foi a principal. Ter a oportunidade de receber amigos, família, conhecidos – e outros até então não tão conhecidos – que passaram a ocupar lugar especial em nossos corações. A cada visita, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco mais de perto esses seres especiais que, por algum ou vários motivos, cruzaram o nosso caminho.

Receber gente é um pequeno ritual: marcamos na agenda, arrumamos a casa, compramos mais comida, abrimos espaço. Varremos a casa, escrevemos uma mensagem nova no nosso letreiro, separamos a roupa de cama, eu acendo incenso, Oliver tira os lixos e o Gu arruma nosso armário da cozinha meticulosamente (?). Damos água pras plantas, lavamos a louça da pia e deixamos o ar entrar.

As visitas então chegam. Recebemos com abraços apertados, alegria e aquela vontade de passar dia e noite inteira conversando. Ajudamos com a programação turística, damos dicas, chave de casa, cartão da bicicleta. Levamos nos nossos restaurantes de tapas preferidos, nos lugares com as melhores vistas da cidade (bunkers!), no bar do flamenco, no bar do absinto e em outros cantinhos e ruas que a gente gosta de passar.

Tem vezes que não dá pra estar tão junto quanto gostaríamos, tem trabalho, aula ou algum compromisso desses que não dá pra fugir. Mas a gente sempre consegue ter nossos momentos especiais. Às vezes é uma conversa no sofá, uma caminhada pela praia ou um café da manha de domingo.

Dá uma alegria imensa poder receber todas essas pessoas no nosso lar e saber que elas se sentem à vontade dividindo um pouco do nosso espacinho e da nossa vida. Recebemos pessoas maravilhosas que nos deixaram de presente uma casa cheia, um coração quentinho, bons momentos, novas ideias, receitas, risadas e que, sem dúvidas, marcam de forma única a nossa vida e esse ano em Barcelona.

Queria agradecer a todos e todas que nos visitaram nesse período: Pri, Lucas, Fer, Du, Re, Grego, Tati, Gusso, amigo que vendia violinos, Matheus, Fernanda, Josephina, Thiago, Pai, Mãe, Johnny, Tia Márcia, Tio Carlos, Dan, Carol, Susi, Keith, Milan, Claudemir, Vini e Jacque da Suécia, Ben, Sara, Giulia, Federica, Carol e Alf. Também aos que passaram por Barcelona mas não ficaram aqui em casa: Jasper, Rosana, Kethy, prima da Kethy, Sheila, Léo, Jonathan, Marie, Black, Manuel, Carlinhos, Ellen, Nati, Simon, Thais (desculpa se tá faltando alguém, foram muitos) e aos que tantos que, se Deus quiser, estão por vir.

Por último e mais importante, meu muito obrigada aos meus roomies, mini família e companheiros de vida Oli e Gu, que abrem seus braços junto com os meus para receber toda essa gente linda.

E pra quem tem planos de vir, é só chegar! Nossas portas e corações estarão sempre abertos para quem é do bem! Vem que tem um sofá macio, colchão de ar e muito amor pra dar.

Que venha um novo ano com muitas novas estadias na Rambla 16! ❤