Apartamento 1001

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Texto de Julho de 2017

Não sei dizer exatamente há quanto tempo o Apê 1001 está na nossa família. Eu arriscaria dizer uns 30 anos, mais ou menos. Mas a verdade é que o tempo cronológico pouco importa quando pensamos em todas as histórias e “causos” vividos ali.

Localizado no centro de Curitiba, na rua Lourenço Pinto (nome que rendeu algumas risadas de nós primos) o 1001 é um pequeno apartamento de dois quartos, sala, banheiro e uma cozinha com uma “lavanderiazinha”. Deve ter seus 70 metros quadrados.

Inversamente proporcional ao seu tamanho, porém, é a sua capacidade de abrigar pessoas. O apartamento já foi lar de muita gente, inclusive meu durante os primeiros 6 meses que vivi na capital. Morávamos em 6 + 1: Eu, Mãe, Pai, Johnny, Sarah, Ruth e Gustavo, que dormia no apê uns andares pra baixo mas passava o dia inteiro com a gente. Dividíamos sofá cama, quarto, armário, talheres, nega-maluca e vitamina de banana no final da tarde, sopa nas noites frias e os desafios da mudança de cidade. Foram 6 meses intensos e que ficaram bem marcados na memória.

No meio de conversas de família, volta e meia alguém menciona o período que também passou acampado, hospedado ou morando ali. No início até me surpreendia e achava graça na coincidência: “- SÉRIO, você também morou lá?!” mas hoje já acho estranho mesmo falar com gente que não tenha passado pelo menos alguns dias naquele cantinho no décimo andar.

Os motivos e a duração das estadias foram dos mais diversos: sobrinhos fazendo vestibular, cursinho ou começando a faculdade, cunhado com novo trabalho, irmãos fazendo especialização, prima fazendo curso, primo em reunião ou entrevista de trabalho, tios com visitas médicas marcadas, pós-operatórios, batizados e crismas, crises, visitas breves (outras nem tão breves assim), mudança de vida e êxodo rural, pra citar alguns. Tem gente que veio por dias e ficou meses, gente que veio por meses e ficou anos e também os que não criaram raízes, mas que sempre tiveram a segurança de saber que independente do que ocorresse, o 1001 estaria ali para segurar a barra quando fosse necessário.

Seria injusto falar do 1001 sem mencionar sua proprietária, gestora e idealizadora: Rejane Teresinha, mais conhecida como Tia Chane, a quem tenho a sorte de poder chamar de Madrinha. Se alguém tem coração de mãe, essa pessoa é a Tia. Durante todos esses anos de 1001, ela recebeu, acolheu, aconselhou e também deu algumas boas lições para os que compartilharam do seu lar. Nos cuidados, carinhos e no apartamento dela, sempre coube mais um (mesmo que bem apertadinho).

Já faz mais de ano que a Tia comprou um novo apartamento. Diferente do nosso querido 1001, o novo lar é espaçoso, tem cobertura e até uma piscininha. Entre reformas e vai-e-vens de coisas, só essa semana ela se mudou para lá oficialmente. Foi organizando lenta e pacientemente o novo espaço e sem pressa alguma, se despedindo pouco a pouco do antigo endereço.

Por um momento não entendi bem o porque da demora. Ela dizia que faltava isso e aquilo, que sempre tinha algum detalhe para acertar e que na próxima semana isso se resolveria. Mas, no fundo no fundo, ela bem sabia que seus dias no 1001 estavam no último minuto do acréscimo.

Passaram-se semanas e alguns meses até a derradeira e inevitável despedida. Ontem, no almoço de domingo, inaugurou-se o 701 – o sucessor de toda uma era. Quando conversamos por Skype, vi toda a família reunida ali no novo sofá, não poderia ter ficado mais claro: Madrinha, seu lar, seja ele onde for, é só uma extensão do seu enorme coração. Enquanto houver a sua presença, seu jeito acolhedor e os seus braços sempre abertos o 1001 estará sempre vivo em nós.

Um muito obrigada em nome de todos os que tiveram a sorte de dividir seu lar contigo. E vida longa ao 701!!!

 

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