Caminho // 2 – O começo

Saímos de Saint Jean às 7h30 da manhã enquanto o sol ainda nascia. Estávamos ansiosas para o primeiro dia, conhecido por ser um ou O mais difícil de todo Caminho. Ouvimos dizer que quem aguenta o primeiro, aguenta todos.

Na verdade, ouvimos muita coisa. Que os primeiros dias seriam os mais difíceis, que acostuma, que a experiência do Caminho muda a vida pra sempre, que seria inesquecível, que existe um você antes e outro depois de chegar a Santiago. Tem gente que encontrou Deus, gente que mergulhou em si mesmo, que presenciou milagres, que conheceu o amor da vida, que largou o emprego e foi viver de luz. E tem nós.

Nós sonhávamos com o dia em que colocaríamos nossos pés no asfalto. Fora isso, não sabíamos o que esperar.

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Seriam 27km dos quais 21 eram só subida e os últimos de descida extremamente íngreme. Os primeiros passos me fizeram sentir aquela curiosidade de criança. Minha vontade era ir correndo para descobrir o que seria a tal subida dos Pirineus, quem eram os outros peregrinos, como seriam os albergues que dormiriamos. Minha Mãe estava preocupada com os joelhos (se recuperava de uma tendinite), tentando ajeitar a bota e acertar as alças da mochila.

Os primeiros 5 ou 6km foram, para mim, os mais difíceis – não sei se por serem mais íngremes, pela falta de café da manhã (só tinhamos comido uma banana cada) ou por serem os primeiros mesmo. No Refúgio Orisson, primeira e única parada do trajeto, tomamow um café com leite, comemos bocadillos e um bolo típico do País Basco. A comida nos deu energia e os próximos 10km foram bem mais fáceis e animados. Dançamos, tiramos fotos e cantamos. Os Pirineus já não pareciam um bicho de sete cabeças.

O sol da manhã contornava as montanhas que tinham seus picos cobertos de neve. A paisagem era de encher os olhos e o tempo nos ajudou muito. Foi um presente de dia. Subimos, subimos e subimos um pouco mais. Quando parecia que não dava pra ficar mais alto, aparecia um baita morro na nossa frente.

Depois de umas 6 horas de caminhada, finalmente começamos a descer. Em meio a montes de neve derretendo e folhas de árvore acumuladas pelo trajeto, fomos fazendo os kilometros restantes até Roncesvalles.  Penso em quão sortuda sou de estar ali e poder viver esse momento ao lado da pessoa que mais amo nesse mundo.

Chegamos. O albergue era enorme, iluminado e com cabines de duas pessoas, muito melhor do que a expectativa. Mas o banho era frio. Depois de 27km, aquela ducha fria no inverno foi o cartão de boas vindas para o Caminho. Teve janta comunitária e uma missa com benção para os peregrinos em várias línguas.

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O albergue acendeu as luzes às 6 da manhã. Todas as mais de 50 pessoas que estavam dormindo no nosso andar começaram a arrumar as mochilas e fazer fila no banheiro.

Ainda estava escuro e a lua iluminava o céu entre as árvores ainda sem folhas. Caminhamos até um pueblo onde paramos para o café. O dono do bar me contou a história da ‘Flor dos Pirineus’, que  só nasce ali na região e que os bascos acreditavam que era proteção contra duendes e criaturas das sobras. Comprei um adesivo pra levar na mochila. Nunca se sabe.

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Nós somos bem diferentes, e isso começa a ficar mais evidente à medida que os dias passam. Ela é super prevenida e gosta de pensar em tudo. Eu sou mais descuidada e vou improvisando. Ela gosta de fazer a caminhada “em um tiro só” e eu prefiro ir parando cada pouco. Eu tenho fome o tempo inteiro e ela fica satisfeita com uma boa refeição por dia.

Aproveitamos as horas de trilha para conversar sobre as coisas que aconteceram nos últimos meses. Faz tanta falta dividir a vida com ela. Andamos lado a lado, às vezes de mãos dadas. Dividimos tudo. Passamos shampoo por cima do box, seguramos a porta dos banheiros que não fechavam. Brindamos com vinho sempre que incluído no menu peregrino e escolhemos algo diferente para agradecer.

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No final do terceiro dia conhecemos o Nicola. Um senhor italiano de 70 anos que fazia o caminho pela oitava vez. Ele contou (em italiano mesmo) que a primeira vez foi quando a esposa dele faleceu e, desde então, faz todos os anos. Quando perguntei o que fazia ele voltar ele disse – O caminho é arte, poesia e música. Seu Nicola ❤

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Pegamos muito frio e chuva e chegar ao albergue de Pamplona foi um abraço no coração. Umas senhorinhas alemãs que trabalhavam como voluntárias ali nos receberam com chá quente e bolacha maria. O banho era tão quente que fechei os olhos e deixei a água escorrer pelo corpo por uns minutos.

Mesmo exaustas, nos vestimos e saímos para jantar e ver um pouco da cidade. Tomamos umas taças de vinho e comemos uns pintxos muito bons no Bar do Gaúcho. Quando nos demos conta estávamos andando pela cidade falando bobagem e chorando de rir.

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Bangkok

Estamos no coração de Bangkok. Mais especificamente, no meio de Chinatown.

Chegamos ontem de madrugada e a cidade ainda vibrava com o trânsito intenso e cintilava ao reflexo dos infinitos letreiros de neon. Na rua, os trabalhadores das barraquinhas finalmente encerravam o expediente. Alguns sentavam para comer enquanto outros recolhiam as mesas e cadeiras das calçadas. Depois da perfeição quase blasé de Singapura, a Tailândia nos recebeu com muitos cheiros, barulhos e o caos digno de um lugar cheio de vida. Bem mais aconchegante.

O hostel fica ao lado de uma casa de massagens e logo em frente a um restaurante de ensopado de barbatana de tubarão. Se o outro lado do mundo tem uma cara, é essa.

Esse é o nosso último destino antes de voltar a Barcelona – e últimos destinos são sempre um tanto prejudicados. Seja pela pouca energia ou dinheiro restantes ou por já estarmos mais acostumados com “o diferente”. Mas Bangkok não me parece o tipo de lugar que passaria despercebido.

É manhã.

Já dancei no chuveiro desse banheiro com paredes mal pintadas, tomei café e refiz o meu curativo na perna. Estamos deitados, meu cabelo ainda molhado enrolado na toalha e o corpo descansando só mais um pouquinho. A pele gelada pelo ar condicionado, fugindo do mormaço quente que insiste em entrar pela fresta da janela.

Deveríamos ter saído, mas estamos aqui escutando uma versão esquisita de “Come as You Are” do Caetano e jogando conversa fora. Essa ânsia de querer ver tudo às vezes nos impede de sentir a energia singular de cada lugar. Por isso, volta e meia vamos mais despacito, suave, suavecito.

Até porque vejo uma graça toda especial em estar em meio a tanto para descobrir e ainda assim não ter pressa. Os instantes antes de sair para explorar a cidade sobra a qual tanto li e pesquisei tem um charme sutil. Sinto como se estivesse guardando as últimas páginas do meu livro preferido só para viver mais um pouco na ignorância de não saber o desfecho.

Então lá vamos: a desvendar o não-mistério dessa cidade grande do lado de cá.

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