É sempre bom lembrar

[texto de 11 de maio de 2017]

“Esse aqui é um recado para mim mesma.

Quando você voltar a morar no Brasil, demore o tempo que for, tenho certeza que vai sentir falta de muitas coisas do lado de cá – desse jeito nostálgico e melodramático que você tem.

Vai sentir falta da praia, de fazer tudo a pé, da segurança. Vai dar vontade de comer os pratos preferidos, viajar barato para outro país no final de semana, das coisas legais do trabalho.

Haverão dias onde você vai desejar estar aqui, longe de tudo e todos, livre pra fazer o que bem entender na hora que for. Vai dar vontade de viver só mais um dia sob o Sol Mediterrâneo, falando espanhol e morando nesse apartamento nas Ramblas que pouco a pouco você fez lar. As inesgotáveis opções de restaurantes, os festivais, as corridas na beira da praia, os museus, as Fiestas de Gracia, as ruas estreitas do Born e os quase seis meses de verão são, sem dúvida, dignos de uma saudadinha.

Mas é importante que você se lembre também dos dias de frio, da solidão e da vontade de estar perto da família e amigos. Das vezes que faltaram abraços, colo, festas e as melhores companhias do mundo (que estão aí). Que teve saudades de casa, da cultura e do sorriso brasileiro. Do abraço de mãe, do feijão com arroz, de falar português. Da música ao vivo, das belezas naturais e da nossa gente simples. Do sentimento de ser e pertencer a algum lugar.

E você já sabe disso, como prova esse texto-recado vindo direto do passado. São os grandes trade-offs da vida, né não?  Então me promete uma coisinha: já que você e eu sabemos que o tempo não vai nem volta, aproveita e curte o que tem pra hoje, que, no final das contas, é o melhor jeito de ser feliz.

Eu vou fazendo o mesmo por aqui. É sempre bom lembrar.”

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CAMINHO // 3 – Os dias chuvosos

Acordamos com bastante chuva. O rio perto do nosso albergue transbordou durante a noite e molhou todas as roupas que estavam secando no porão. Tomamos um café da manhã típico do Caminho – torradas e café com leite – servido pelas senhorinhas alemãs. O tempo estava tão ruim que deu vontade de passar um dia a mais naquela casinha aconchegante.

Mesmo querendo ficar, calçamos as botas e nos vestimos com as roupas e capa de chuva. O início do dia foi atravessando Pamplona. Era um domingo de manhã e as luzes ainda acesas refletiam nas poças de água que se formavam na rua de pedra.

Depois dos primeiros quilômetros senti muita fraqueza, uma moleza nas pernas. Aguentamos até encontrar um restaurante em Cizur Menor com mochilas esparramadas na frente – sinal de pit stop de peregrinos. No “Asador, el Tremendo” tomamos chocolate bem quente e sentamos ao lado uma lareira para descansar e secar as roupas. Carimbamos o passaporte, juntamos forças e seguimos. Passamos pelo Alto del Perdón, lugar realmente altíssimo que tem uma das vistas mais bonitas do Caminho, mas o dia estava tão chuvoso e nublado que não dava pra ver nada. Passamos meio batido por lá.

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Os peregrinos não andam sempre juntos, mas como a média de kms possíveis de ser feitos diariamente por um ser humano a pé é mais ou menos a mesma, vamos encontrando mais ou menos as mesmas pessoas nas paradas.

Já nos primeiros dias, entendi que éramos personagens do Caminho. A mãe e a filha. As únicas da modalidade no nosso grupo. Tinham também outras categorias, como “a família feliz” – 4 americanos muito simpáticos e sorridentes, de um bom humor aparentemente inabalável pelos dias de chuva, “as amigas” – 8 mulheres de meia idade que faziam o caminho juntas, “o italianão” – senhor que se achava um galã e tentava chegar em todas as peregrinas, “os jovens descolados” – de maioria alemã, que se conheceram no começo e faziam festa, tocavam violão e sempre estavam nos bares no final da tarde e, claro, os coreanos. Muitos coreanos.

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No quinto dia, em Puente de la Reina, minha mãe começou a sentir muita dor no tornozelo. A bota pegava bem no ossinho e fazia uma fricção insuportável a ponto de ela não conseguir nem andar alguns metros para chegar ao centro da cidade. Precisávamos encontrar um novo calçado pra ela, mas o comércio só abriria em 2 horas.

Paramos em um bareco pé sujo até que as lojas começaram a abrir. Tomamos café, escrevemos um pouco e esperamos, um tanto ansiosas, para saber se encontraríamos algo que ajudasse a caminhar os 22km programados para o dia. Perto das 10 da manhã, o dono do bar, que já sabia do nosso drama, veio nos avisar que a sapateira – sim, a única da cidade – estava doente e não abriria a loja.

Começamos a pensar nas opções. Não poderíamos ficar na cidade porque já tínhamos mandado a mochila da mãe de van para tentar aliviar a dificuldade. Fomos até a farmácia, tentamos tornozeleira, gel frio, e faixas. Tentamos trocar de bota. Encontramos uma alpargata, mas não resistiria à lama e às chuvas que iam e vinham durante o dia. Negamos até o último minuto a solução mais sensata: pegar um ônibus para a próxima cidade.

Meu coração estava dividido. Queria ir caminhando, não de ônibus. Me sentia boicotando o Caminho por “desistir” na primeira dificuldade. Não queria deixar a minha mãe sozinha, mas ao mesmo tempo sabia que ela conseguiria se virar. Comecei a ficar nervosa.

Disse a ela que queria ir sozinha. Ela, sem conseguir caminhar nem meia quadra, disse que se eu fosse ela ficaria muito preocupada, então iria junto. Fiquei mais nervosa. Disse que não era justo, que ela não tinha condições de caminhar e eu sim, e queria muito continuar. Ela disse que se eu quisesse ir, ela iria tentar. Mas não tinha cabimento ela caminhar no estado que estava.

Talvez seja isso o companheirismo? Respeitar o tempo e as limitações do outro mesmo quando isso envolve abrir mão do que eu posso/quero? Ou o certo seria que cada uma seguisse seu caminho, literalmente? Sei lá.

O sentimento ruim foi subindo do meu estômago para a garganta e eu já não conseguia mais falar com ela. Nisso, o ônibus chegou no ponto. No auge da minha brabeza, decidi que iríamos as duas. Atravessamos a rua correndo, guardamos nossas mochilas no porta malas e subi no ônibus chorando de raiva. Raiva. Nem sei a última vez que tinha sentido algo do tipo. E justo ali, nessa situação e com a pessoa que eu mais amo, nesse caminho que era pra ser todo zen.

Não queria nem sentar ao lado dela. Fui chorando os 20 minutos de viagem. Me sentia um fracasso por ter pego um ônibus no 5o dia de caminho e culpada por ter sido tão infantil e ríspida. Fiquei tão nervosa que dava vontade de vomitar (hello, gastrite!). Do outro lado do corredor, minha mãe também chorava.

Chegamos em Estella e o frio gelou os ossos. Fomos em busca de uma loja de calçados encontramos um tênis impermeável para a mãe. Enquanto ela provava e caminhava pela loja, troquei umas mensagens com a Sara (quase minha guru do caminho) que me mandou a seguinte mensagem:

“São encontros não tão prazerosos com as nossas frustrações… Longe da vida diária, aí no Caminho, parece tudo mais intenso. Veja como uma oportunidade pra reconhecer o sabor desses sentimentos, como você lida com eles, o que eles te trazem.. Acho que se você está disposta a se conhecer, será bem vindo tudo isso! E como me disseram – o Caminho te dá o que você precisa, não o que você quer!”.

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Paramos para almoçar. Fizemos as pazes, pedi desculpas umas boas vezes. Mas ainda estávamos chateadas. Entre uma taça de vinho e outra, decidimos buscar a mochila e andar até a próxima parada já que agora tínhamos um calçado bom para a Saletinha. Com a ideia de caminhar, ficamos animadas, nos abraçamos mais uma vez e perdoamos uma à outra. Vestimos nossas capas de chuva e seguimos. Nossa decisão de fazer esses poucos kms do dia foi um reatar ao nosso propósito. Deixamos ir. Deixamos passar e aceitamos.

Entendi ali que o que não dá pra mudar só nos cabe aceitar com amor e, a partir das pazes feitas com o que já foi, entender a mensagem e seguir em frente mais com mais convicção e força possível.

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Chegamos em Azqueta, no alto da encosta estava o Albergue Perla Negra (que poderia perfeitamente ser a casa da Luna Lovegood). Realmente uma pérola, uma jóia na vila escondida no meio das montanhas de Navarra.

Quem nos recebeu foi a Helena, dona da casa, toda descabelada, alegre e carinhosa. Ela nos deu jornal para colocar dentro das botas (para absorver a umidade da chuva), nos levou ao quartinho no sótão onde também ficava a mesa de jantar. As paredes de pedra e a decoração hippie colorida não poderiam combinar mais com a anfitriã. Tomamos um banho quente e descansamos. Ganhei um colo e um cafuné da mãe.

A Helena fez um jantar vegetariano maravilhoso, e nos deu a receita para sua tortilla de batata campeã (eleita em um concurso municipal quando ela tinha só 11 anos). Conversamos sobre a vida e sobre a comida do gato Amet, que sofria de obesidade. Nós éramos as únicas hóspedes junto com um americano-escritor-veterinário-estudioso-de-cavalos-e-gatos, e o Filipino de Boston, Gwan. Fazia muito frio e dormimos enterradas nas cobertas.

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Tomamos café na casa da Helena e nos preparamos para partir. Ela insistiu que fizéssemos ‘bocatas’ – os sanduíches dos espanhóis – com a tortilla que sobrou do jantar. Muito amada. Na saída, ela nos contou sobre o Marcelo, um amigo brasileiro que a ajudou financeira e emocionalmente a começar o albergue em um momento muito difícil para ela, quando se tornou mãe solo há alguns anos. Seus olhos se encheram de lágrimas e os da minha mãe também. Nos abraçamos forte e colocamos o pé na estrada outra vez.

 

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Pamplona

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Esperando a loja de sapatos que nunca abriu

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A Helena do Albergue Perla Negra

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Belíssimas e o tempo estava ótimo

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Sempre e principalmente quando

Não nos desencorajemos, já temos muita gente que o faça por nós.

Vamos cantar desafinadas, se for esse o tom que nossa alma quer ouvir.

Vamos pintar obras feias,

Vamos desenhar linhas tortas,

Vamos tirar fotos toscas,

Vamos declamar poesias mortas,

Vamos escrever os textos dos nossos diários,

Vamos deixar fluir o rio criativo que corre dentro de nós.

Ontem comecei a ler um livro horroroso. Horroso mesmo. De um cara X, mas que agora é best-seller e tá lá nas primeiras prateleiras – por qualquer que seja o motivo. Eu mesma já vi mulheres escrevendo em guardanapos sujos mensagens tão, mas tão mais importantes, dobrando e guardando no bolso.

Não nos deixemos calar por ninguém (muito menos por nós mesmas),

Não sejamos tão críticas,

Não nos cobremos tanto.

Vamos dar voz à nossa intuição,

Vamos nos manifestar,

Mesmo, sempre e principalmente quando nos pareça pouco,

Quando nos pareça simples,

Quando nos pareça insosso.

Caminho // 2 – O começo

Saímos de Saint Jean às 7h30 da manhã enquanto o sol ainda nascia. Estávamos ansiosas para o primeiro dia, conhecido por ser um ou O mais difícil de todo Caminho. Ouvimos dizer que quem aguenta o primeiro, aguenta todos.

Na verdade, ouvimos muita coisa. Que os primeiros dias seriam os mais difíceis, que acostuma, que a experiência do Caminho muda a vida pra sempre, que seria inesquecível, que existe um você antes e outro depois de chegar a Santiago. Tem gente que encontrou Deus, gente que mergulhou em si mesmo, que presenciou milagres, que conheceu o amor da vida, que largou o emprego e foi viver de luz. E tem nós.

Nós sonhávamos com o dia em que colocaríamos nossos pés no asfalto. Fora isso, não sabíamos o que esperar.

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Seriam 27km dos quais 21 eram só subida e os últimos de descida extremamente íngreme. Os primeiros passos me fizeram sentir aquela curiosidade de criança. Minha vontade era ir correndo para descobrir o que seria a tal subida dos Pirineus, quem eram os outros peregrinos, como seriam os albergues que dormiriamos. Minha Mãe estava preocupada com os joelhos (se recuperava de uma tendinite), tentando ajeitar a bota e acertar as alças da mochila.

Os primeiros 5 ou 6km foram, para mim, os mais difíceis – não sei se por serem mais íngremes, pela falta de café da manhã (só tinhamos comido uma banana cada) ou por serem os primeiros mesmo. No Refúgio Orisson, primeira e única parada do trajeto, tomamow um café com leite, comemos bocadillos e um bolo típico do País Basco. A comida nos deu energia e os próximos 10km foram bem mais fáceis e animados. Dançamos, tiramos fotos e cantamos. Os Pirineus já não pareciam um bicho de sete cabeças.

O sol da manhã contornava as montanhas que tinham seus picos cobertos de neve. A paisagem era de encher os olhos e o tempo nos ajudou muito. Foi um presente de dia. Subimos, subimos e subimos um pouco mais. Quando parecia que não dava pra ficar mais alto, aparecia um baita morro na nossa frente.

Depois de umas 6 horas de caminhada, finalmente começamos a descer. Em meio a montes de neve derretendo e folhas de árvore acumuladas pelo trajeto, fomos fazendo os kilometros restantes até Roncesvalles.  Penso em quão sortuda sou de estar ali e poder viver esse momento ao lado da pessoa que mais amo nesse mundo.

Chegamos. O albergue era enorme, iluminado e com cabines de duas pessoas, muito melhor do que a expectativa. Mas o banho era frio. Depois de 27km, aquela ducha fria no inverno foi o cartão de boas vindas para o Caminho. Teve janta comunitária e uma missa com benção para os peregrinos em várias línguas.

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O albergue acendeu as luzes às 6 da manhã. Todas as mais de 50 pessoas que estavam dormindo no nosso andar começaram a arrumar as mochilas e fazer fila no banheiro.

Ainda estava escuro e a lua iluminava o céu entre as árvores ainda sem folhas. Caminhamos até um pueblo onde paramos para o café. O dono do bar me contou a história da ‘Flor dos Pirineus’, que  só nasce ali na região e que os bascos acreditavam que era proteção contra duendes e criaturas das sobras. Comprei um adesivo pra levar na mochila. Nunca se sabe.

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Nós somos bem diferentes, e isso começa a ficar mais evidente à medida que os dias passam. Ela é super prevenida e gosta de pensar em tudo. Eu sou mais descuidada e vou improvisando. Ela gosta de fazer a caminhada “em um tiro só” e eu prefiro ir parando cada pouco. Eu tenho fome o tempo inteiro e ela fica satisfeita com uma boa refeição por dia.

Aproveitamos as horas de trilha para conversar sobre as coisas que aconteceram nos últimos meses. Faz tanta falta dividir a vida com ela. Andamos lado a lado, às vezes de mãos dadas. Dividimos tudo. Passamos shampoo por cima do box, seguramos a porta dos banheiros que não fechavam. Brindamos com vinho sempre que incluído no menu peregrino e escolhemos algo diferente para agradecer.

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No final do terceiro dia conhecemos o Nicola. Um senhor italiano de 70 anos que fazia o caminho pela oitava vez. Ele contou (em italiano mesmo) que a primeira vez foi quando a esposa dele faleceu e, desde então, faz todos os anos. Quando perguntei o que fazia ele voltar ele disse – O caminho é arte, poesia e música. Seu Nicola ❤

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Pegamos muito frio e chuva e chegar ao albergue de Pamplona foi um abraço no coração. Umas senhorinhas alemãs que trabalhavam como voluntárias ali nos receberam com chá quente e bolacha maria. O banho era tão quente que fechei os olhos e deixei a água escorrer pelo corpo por uns minutos.

Mesmo exaustas, nos vestimos e saímos para jantar e ver um pouco da cidade. Tomamos umas taças de vinho e comemos uns pintxos muito bons no Bar do Gaúcho. Quando nos demos conta estávamos andando pela cidade falando bobagem e chorando de rir.

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Caminho // 1 – Antes

Era dia 8 de janeiro. Quando eu voltava do meu horário de almoço o celular notificou que eu tinha um novo e-mail na caixa de entrada:

“Já estou emocionada, com os olhos marejados e o coração palpitando de felicidade! Será um desafio único e inesquecível. Vamos nos unir mais um pouco e aprender uma com a outra muitas coisas lindas sobre nós mesmas. TENHO CERTEZA QUE VAI SER MUUUUITO LINDO! TE AMO, MAMIS”

Em anexo estava a confirmação de compra das suas passagens de avião. O coração quase parou. Agora vai.

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Perdi a conta de quantos checklists fizemos nas semanas que antecederam o Caminho. Eu e minha mãe nos ligamos várias vezes para ter certeza de que não faltava nada. Meias, toalhas, sacos de dormir, arnica, tesourinha. Check. Vimos dicas na internet, nos mandamos links e conversamos com nossos amigos queridos e peregrinos veteranos.

Falei com a Gabi e com a Tia Cláudia por mais de uma hora. Elas deram dicas do que levar ou não, alguns albergues preferidos e uma pomada que é tiro e queda para as inflamações musculares (agora já comprovada empiricamente). Rimos juntas da história da Tia que, logo na primeira parada, deixou metade das coisas e arrancou as páginas e um caderno  – “ah eu nem ia escrever tanto assim”. A Tia, a Carol e a Gabi foram nossa primeira inspiração para começar a sonhar com essa aventura.

Alguns dias depois eu e Oli ligamos para o Ben e a Sara, casalzão maravilhoso que morou em Londres no mesmo período que nós. Na época, curtimos a preparação deles para o Caminho e agora, quase dois anos depois, eles nos ajudavam com a nossa. Eles estão grávidos pela primeira vez e a Sara me escreveu algo especial que divido com vocês:

“Agora na gravidez, ou quando penso no parto, me lembro do Caminho. Uma sensação semelhante de não saber muito bem o que esperar. Se íamos dar conta, o que seria caminhar tanto… tinham tantas incertezas. Iguaizinhas agora. Nada previsível. Mas o que me faz bem é pensar que todos os trechos que aparentemente eram os mais difíceis complicados, que as pessoas alarmavam muito, foram pra gente os melhores! E de longe nem perto do que descreviam.”

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Já era passado da meia noite e ainda não tínhamos conseguido fechar nossas mochilas. Cada uma tinha pelo menos 3kg a mais do que o recomendado, que é entre 10% e 15% do seu peso total/corporal. 

Começamos a pesar cada item na balança da cozinha. Descobri que leggings pesam aproximadamente 250g, um All Star meio quilo e uma escova de cabelo pequena entre 60 e 90g. Se tiver aquele espelhinho embutido, pesa o dobro. 

Tiramos peça por peça de roupa até só sobrar o mínimo possível. Pesamos outra vez, ainda era muito. Deixei o calçado extra. A legging e o vestido ficaram também. A câmera (1kg) veio, mas sem o case e sem a alça supersônica (352g). O caderno teve que ser o de 30 páginas. 

Foi o primeiro dos tantos exercícios de desapego, esse de reduzir o mínimo já previamente reduzido das bagagens. Eu achei até graça, mas a Saletinha estava em um conflito real. Sentada no sofá, ela olhava, analisava e refletia sobre cada coisa, nada feliz em deixar os creminhos, hidratantes, curativos. No final das contas, ela trouxe todas as 5 calças e um belo kit de primeiros socorros que é praticamente uma UTI móvel.

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Acordamos às 6 da manhã e partimos rumo à Estação de Sants para pegar o trem que nos levaria ao início do Caminho Francês. Ainda era noite e as Ramblas estavam vazias sob um céu azul marinho começando a clarear. Mal sabíamos que em poucos dias essas cores do amanhecer nos seriam tão familiares.

O frio da madrugada só não era maior do que o frio na barriga. Estávamos, enfim, começando a realizar o sonho que sonhamos juntas de caminhar os quase 800km em direção à Santiago de Compostela.

Chegando em Saint Jean Pied de Port fizemos nossa credencial de peregrinos, documento oficial que se carimba em todas as paradas para marcar por onde passamos. Também escolhemos nossas conchas e as amarramos nas mochilas. Estávamos prontas para os primeiros 27km.

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Apartamento 1001

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Texto de Julho de 2017

Não sei dizer exatamente há quanto tempo o Apê 1001 está na nossa família. Eu arriscaria dizer uns 30 anos, mais ou menos. Mas a verdade é que o tempo cronológico pouco importa quando pensamos em todas as histórias e “causos” vividos ali.

Localizado no centro de Curitiba, na rua Lourenço Pinto (nome que rendeu algumas risadas de nós primos) o 1001 é um pequeno apartamento de dois quartos, sala, banheiro e uma cozinha com uma “lavanderiazinha”. Deve ter seus 70 metros quadrados.

Inversamente proporcional ao seu tamanho, porém, é a sua capacidade de abrigar pessoas. O apartamento já foi lar de muita gente, inclusive meu durante os primeiros 6 meses que vivi na capital. Morávamos em 6 + 1: Eu, Mãe, Pai, Johnny, Sarah, Ruth e Gustavo, que dormia no apê uns andares pra baixo mas passava o dia inteiro com a gente. Dividíamos sofá cama, quarto, armário, talheres, nega-maluca e vitamina de banana no final da tarde, sopa nas noites frias e os desafios da mudança de cidade. Foram 6 meses intensos e que ficaram bem marcados na memória.

No meio de conversas de família, volta e meia alguém menciona o período que também passou acampado, hospedado ou morando ali. No início até me surpreendia e achava graça na coincidência: “- SÉRIO, você também morou lá?!” mas hoje já acho estranho mesmo falar com gente que não tenha passado pelo menos alguns dias naquele cantinho no décimo andar.

Os motivos e a duração das estadias foram dos mais diversos: sobrinhos fazendo vestibular, cursinho ou começando a faculdade, cunhado com novo trabalho, irmãos fazendo especialização, prima fazendo curso, primo em reunião ou entrevista de trabalho, tios com visitas médicas marcadas, pós-operatórios, batizados e crismas, crises, visitas breves (outras nem tão breves assim), mudança de vida e êxodo rural, pra citar alguns. Tem gente que veio por dias e ficou meses, gente que veio por meses e ficou anos e também os que não criaram raízes, mas que sempre tiveram a segurança de saber que independente do que ocorresse, o 1001 estaria ali para segurar a barra quando fosse necessário.

Seria injusto falar do 1001 sem mencionar sua proprietária, gestora e idealizadora: Rejane Teresinha, mais conhecida como Tia Chane, a quem tenho a sorte de poder chamar de Madrinha. Se alguém tem coração de mãe, essa pessoa é a Tia. Durante todos esses anos de 1001, ela recebeu, acolheu, aconselhou e também deu algumas boas lições para os que compartilharam do seu lar. Nos cuidados, carinhos e no apartamento dela, sempre coube mais um (mesmo que bem apertadinho).

Já faz mais de ano que a Tia comprou um novo apartamento. Diferente do nosso querido 1001, o novo lar é espaçoso, tem cobertura e até uma piscininha. Entre reformas e vai-e-vens de coisas, só essa semana ela se mudou para lá oficialmente. Foi organizando lenta e pacientemente o novo espaço e sem pressa alguma, se despedindo pouco a pouco do antigo endereço.

Por um momento não entendi bem o porque da demora. Ela dizia que faltava isso e aquilo, que sempre tinha algum detalhe para acertar e que na próxima semana isso se resolveria. Mas, no fundo no fundo, ela bem sabia que seus dias no 1001 estavam no último minuto do acréscimo.

Passaram-se semanas e alguns meses até a derradeira e inevitável despedida. Ontem, no almoço de domingo, inaugurou-se o 701 – o sucessor de toda uma era. Quando conversamos por Skype, vi toda a família reunida ali no novo sofá, não poderia ter ficado mais claro: Madrinha, seu lar, seja ele onde for, é só uma extensão do seu enorme coração. Enquanto houver a sua presença, seu jeito acolhedor e os seus braços sempre abertos o 1001 estará sempre vivo em nós.

Um muito obrigada em nome de todos os que tiveram a sorte de dividir seu lar contigo. E vida longa ao 701!!!

 

Outono

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Depois de longos meses de verão, com sol forte das seis da manhã às nove e meia da noite, setembro chegou com novos tons para dar cor à nossa vida. O calor intenso foi nos deixando aos poucos e a brisa de outono veio com ar de renovação.

Ainda me é estranha essa ideia de começar um ‘novo ano’ em um mês que não seja Janeiro. Mas aqui funciona assim. Termina o verão, acabam as férias, começa o ano letivo. Gente nova chega na cidade aos montes e vários amigos vão embora. Parece até final de Malhação: o cenário continua mais ou menos o mesmo, mas só fica um ou outro personagem. Apelidamos esse recomeço carinhosamente de Segunda Temporada.

Nesse meio tempo, as portas da nossa casa estiveram bem abertas e vários amigos passaram por aqui, um atrás do outro, pra não perder o costume.

Na segunda metade do mês, em uma noite no meio da semana, fui buscar a Nanda na Plaza Catalunya. Sem dúvidas uma das visitas que mais esperei: depois de mais de dez anos de amizade, era a primeira vez que conseguiríamos fazer uma viagem juntas. Já era quase uma da manhã quando ela finalmente saiu do ônibus toda descabelada, com seus óculos tortos, chinelo de pelo, sorriso largo e alma reluzindo como sempre. Acon-chegou.

Receber pessoas aqui sempre me abre os olhos para detalhes da cidade que ainda não tinha reparado ou que já acostumei a ver. É um exercício interessante esse de tentar ver as coisas como se fosse a primeira vez, porque se for parar pra pensar, sempre é a primeira vez.

No meio de toda confusão dos quatro voos perdidos e outras tantas passagens alteradas, Nanda ficou só cinco dias por aqui. Apesar de curto, o tempo que passamos juntas foi aproveitado bem demais. Fomos aos meus bares e restaurantes preferidos, aos eventos da Fiesta de la Mercé, caminhamos pelos bairros antigos. Fomos à praia, museus e a um parque de diversões daqueles itinerantes – comemos algodão doce e passamos mal em um brinquedo desses que joga a gente pro alto sem cinto de segurança e todo mundo acha que tá ok, tá bacana, tá seguro. Fiquei com uns hematomas nas costelas, perdemos um pé do chinelo de pelo, saímos tontas.

Conversamos por horas de madrugada, em cafés, na rua. Fotografamos e usamos as roupas uma da outra, igualzinho como fazíamos aos 12 anos de idade. Quando eu achava que íamos parar para descansar, a Nanda sempre queria em algum outro lugar, fazer qualquer outra coisa – se pudesse ser de moto, melhor – S.O.S. Juro que tem vezes que não sei de onde vem tanta energia.

Teve um dia no meio desses todos que foi ainda mais especial. Era aniversário do Thomas, namorado da Ana. Fomos a um restaurante comer tapas e tomar cerveja. Chegando lá encontramos a Thais, uma amiga que estudei junto na facul e no colégio, que nos esperava. Não nos víamos há uns dois anos, segundo nossos cálculos.

A Thais veio fazer uma viagem pela Espanha, começando e terminando por Barcelona, passando por Mallorca, Madrid, Granada e Sevilla. Ela queria fazer uma viagem, seus possíveis acompanhantes estavam todos trabalhando e ela tinha o tempo e o dinheiro. A turnê da banda preferida dela, os Rolling Stones, passaria por aqui. Ela comprou o ingresso e as passagens e veio sozinha mesmo. Gosto de gente assim.

Conversa vai, conversa vem, entre tapas e beijos, cervejas e sangrias, saímos do restaurante e passamos em um bar de chupitos onde cada um pagou uma rodada de shots – fomos embora depois do oitavo, pelo bem de todos. Já não tão sóbrios, decidimos caminhar até uma festa, uns 2km dali. Pelas ruas largas do Eixample fomos dançando cantando e dançando hits antigos à capela – de Tim Maia a Smash Mouth.

Uma combinação improvável de pessoas em um desses momentos únicos, simples e inesperados.  A alegria e a energia eram tão boas que deu vontade de reviver o momento em looping eterno. Na UltraPop – melhor substituta do V.U até agora – dançamos até as pernas não aguentarem mais e a Thais (que tinha vindo direto do aeroporto) já não conseguisse ficar de olhos abertos. No dia seguinte, curamos a ressaca com um baita brunch de panquecas cheias de syrup e logo estávamos prontos para a próxima.

Em momentos como esse percebo como eu sou uma pessoa de pessoas (people’s-person definitivamente soa melhor). Nesses quase dois anos fora, aprendi a ser um pouco mais auto-suficiente, mas não tem nada que me faça mais completa do que estar ao lado de gente boa que eu amo.

Antes da Nanda ir embora, sentamos em um bar numa praça no meio do Raval, pedimos um café e eu abri meu coração mais uma vez. Coloquei um monte de coisas pra fora e, de repente, meio que como mágica, as coisas fizeram sentido. É engraçado como às vezes a gente precisa verbalizar os sentimentos para se entender melhor. Foi com essa clareza e com palavras de incentivo e carinho que nos despedimos.

Acho que uma das melhores partes de estar com amigos antigos é essa sensação de reencontro com as partes de nós mesmos que se ficaram esquecidas em algum canto. Obrigada Setembro.

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