CAMINHO // 5 – O Caminho do Coração

“Quando caminhamos sozinhos estamos acompanhados apenas de nós mesmos, por isso podemos dar atenção às nossas memórias e, assim, ter novas ideias. […] Para Gros, caminhamos para nos reinventar, para nos dar outras identidades e possibilidades. Isso porque, na vida cotidiana, tudo está associado à função: uma profissão, um discurso, uma postura. E andar a pé é se livrar de tudo isso. Caminhe, então, simplesmente.” – Ana Holanda sobre Frédéric Gros.

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Acordei e, ainda meio desnorteada, dei o primeiro abraço de feliz aniversário na Mãe. Todos no albergue já estavam de pé, então só nos restou arrumar nossas coisas e partir.

É sempre especial poder estar junto nos aniversários. Depois desse tempo fora, parece que fica cada vez mais raro estar presente nessas pequenas alegrias e celebrações de amigos e familiares que, ao meu ver, contém muito do que considero a alegria da vida.

Escolhemos um cafézinho gostoso que ficava de frente para a catedral de Burgos. Comemos bem, com direito a croissant, suco de laranja e cappuccino, cantamos os primeiros parabéns do dia e presenteei a aniversariante com dois pins para a mochila – um de uma peregrina e outro da concha guia do Caminho. Se eu desse algo muito mais pesado do que isso seria um “despresente”.

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Dia 17 de abril também foi o primeiro dia de caminhada do Oliver. Animadas com o novo companheiro, falamos sem parar, nos fizemos das experts do Caminho e ele, por sua vez, parecia um playboyzinho com as roupas e botas novas impecavelmente limpas.

Confesso que, apesar de feliz, fiquei confusa com a chegada do Oli. Não sabia muito o que esperar e supunha que uma nova presença mudaria completamente a dinâmica das caminhadas. Já de início foi um susto: ele estava tão hi-tech, informado das notícias e com a cabeça no trabalho e eu, por outro lado, já não sabia mais onde terminava eu e começava a estrada e só queria saber de filosofar sobre a vida e o existir. Não que isso não ocorra na vida real, mas lá essa diferença foi elevada à milésima potência.

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O céu estava limpo, sem nenhuma mísera nuvem à vista. Esse ponto merece destaque: Mamis ganhou de presente o dia mais lindo que tínhamos presenciado até então. Olhando para o céu azul nem dava para acreditar que já tínhamos passado por tanta tormenta.

Caminhamos até a Ermita da Medalha Milagrosa, uma capela feita em pedra e gelada pra xuxu no meio do nada. As duas freiras bem velhinhas que ficavam ali recebendo os peregrinos eram o carinho em pessoa. Isso foi outro presente. Insistiram para que deixássemos nossas mochilas e descansássemos um pouco. Contei que era “el cumple de mi mama” e quando ela se aproximou, uma das freirinhas deu um parabéns muito amoroso e especial, olhando fundo nos olhos e dizendo palavras que fizeram nossos olhos se encherem de lágrimas. Que benção.

Decidimos caminhar “apenas” 21km nesse dia, na promessa que compensaríamos nos próximos. Paramos antes de almoçar e consegui encomendar um bolo surpresa no albergue que passaríamos a noite. Compramos vinho e alguns ingredientes para fazer um jantar e o Oliver trouxe balões e enfeites e fizemos uma festinha. Foi um dia cheio de amor.

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Tínhamos um objetivo concreto para os próximos dias: recuperar o tempo perdido e chegar a Carrión de los Condes para ficar no tão esperado albergue das freirinhas cantoras. Recalculamos a rota e decidimos que seria justo caminhar 30km em um dia e 38km no dia seguinte para atingir a meta. Mas, como diz uma querida amiga, “Se você quer ver Deus dar risada, conte seus planos para Ele”.

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Saímos cedo e o silêncio na vila era apenas quebrado pelos passos suaves das botas dos peregrinos na estrada de chão. Na saída da cidade vimos um nascer do Sol dos mais lindos das nossas vidas. Saletinha caminhava com os balões de aniversário amarrados na mochila exibindo seus 55 de pé na estrada completos num fim de mundo da Espanha. O céu continuava limpo e o meu joelho deu os primeiros sinais de dor.

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No fatídico 15o dia – que marcou e mudou o rumo da nossa viagem –  saímos de Ítero del Castillo e paramos em um recanto chamado “En el Camino” e comemos o melhor bocadillo (sanduíche na baguete) de omelete com requeijão da vida. Foi a melhor comida de todo o caminho, pasmem. Repetimos 3 vezes porque comida boa não se come por 3 euros todo o dia e dificilmente voltaríamos lá nessa encarnação. Uno más, por favor!

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Logo na primeira cidade paramos em uma farmácia na tentativa de encontrar algo para salvar o meu joelho direito que estava em frangalhos depois dos 30km do dia anterior. Com umas pomadas, joelheira de contenção e remédios, seguimos. E seguimos. E seguimos. E quando finalmente encontrei uma placa, ainda faltavam 18km.

Queríamos muito descansar, mas nosso objetivo de chegar no albergue das freirinhas falou mais forte. Caminhamos sob o sol forte e entendemos que muito calor é ainda mais difícil do que o frio e chuva. Depois de 9 horas de suplício já não sabíamos de onde tirar energia e eu já não conseguia dobrar a perna. Nos últimos 5km fomos cantando Tim Maia, Rita Lee, Secos e Molhados e fazendo coreografias para ver se o tempo passava mais rápido. Finalmente chegamos em Carrión.

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Encontramos as irmãs do “Albergue Parroquial Santa Maria” pela cantoria que ecoava pelas ruas. Quando chegamos lá, nos disseram que os quartos estavam lotados e que não poderíamos ficar ali. Parecia um roteiro de filme barato. Fizemos 38km para chegar ali para ter que dormir em outro lugar? Eu queria chorar mas só conseguia rir de nervoso.

 

Vendo nossa cara de tristeza, as irmãs nos chamaram para entrar e cantar junto. Depois de Amazing Grace, Ave Maria e várias outras músicas, elas abriram para os peregrinos e o o Oliver tocou e nós cantamos Meu Erro. Talvez aí ele já tivesse percebido nossa mancada.

Na hora de levantar para procurar o outro albergue, a Mãe sentiu uma dor muito, muito forte na parte de cima da perna. De uma hora para a outra ela não conseguia mais andar. Carregamos ela e a mochila até o albergue Espiritu Santo e depois de algumas horas vimos que não era uma simples dor muscular.

De cadeira de rodas, levamos ela até o pronto socorro onde  deram injeções para a dor e nos recomendaram pegar um ônibus para ir a outra cidade maior fazer exames. Ela não conseguiria andar tão cedo, disse o médico. Parecia que tinha estirado o músculo e necessitaria de uma a três semanas de repouso – tempo que nós definitivamente não tínhamos para esperar.

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Depois de uma noite mal dormida, acordamos e percebemos que a situação não estava nada melhor. Ela não conseguia nem caminhar até o banheiro, imagina então andar vários quilômetros todos os dias. A Ir. Maria Antônia, responsável do albergue, nos deixou passar o dia e uma noite extra lá para que pudéssemos descansar e resolver o que fazer. Eu e o Oli sentamos na cama da Mãe para conversar mas ninguém queria dizer o que todos já entendiam: nosso Caminho terminava por ali.

Eu e o Oliver começamos a buscar as passagens para voltar para Barcelona. Se tudo desse certo, poderíamos voltar em alguns meses para fazer a metade que faltava. Mas a Saletinha não se dava por vencida. Pediu que a gente esperasse só um pouco, porque ela queria seguir o caminho do coração.

E o caminho do coração dizia a ela para continuar.

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Retrospectiva 2018

#31/31:

Tenho a impressão de que vivi várias vidas diferentes nesse 2018. Se você acha retrospectivas chatas, pode pular essa aqui. Reservei meu último textinho para contar o porquê desse ano ter sido um ano e tanto para mim – e também deixar registrado pra nunca esquecer.

Janeiro: Na nossa primeira manhã de 2018, acordamos em uma cabana que armamos na sala do nosso apêzinho em Barcelona. Fazia frio e passamos um mês quieto e solitário, trabalhando e fazendo maratona de séries nas horas vagas. Pra não dizer que não teve diversão, fomos para as montanhas em um final de semana ver a neve e fazer snowboard.

Fevereiro:  Saí da Danone e poucos dias depois fomos para a Indonésia, Singapura e Bankgok. O Oliver foi convidado para dar uma palestra lá e acabamos adiantando um grande sonho nosso que era conhecer a Ásia. Caí de moto e ganhei uma cicatriz que é a lembrança oficial da cidade que ganhou meu coração (e onde fui pedida em recasamento) – Ubud, Bali. Foi a viagem mais incrível que fiz até hoje.

Março: Voltamos para BCN e passei um mês curtindo a cidade, cozinhando e lendo como jamais tinha feito. Trabalhei como voluntária na Future Funded e organizei nosso roteiro para o Caminho.

Abril: Eu e minha Mamis saímos da França rumo a Santiago de Compostela. Algumas semanas depois, o Oliver se juntou a nós. 800km e 30 dias depois, chegamos ao nosso destino com muita história pra contar.

Maio: Comecei a trabalhar na agência e nós (quando digo nós, leia eu + meu fiel escudeiro Oliver) recebemos os primeiros visitantes do ano – o Demir e a Bruna . Comecei um curso de culinária vegana e no final do mês o Gustavo anunciou que tinha achado um novo apartamento para morar e sairia de casa. Foi nossa primeira despedida.

Junho:  A Amandinha e seu TCC se mudaram para o ex-quarto do Gu e, junto com a Copa do Mundo, chegaram a Thais, Lu Paiva, Marcela, Nanda e o Thiago de mala no meio da praia de Barceloneta. Todo mundo reunido lá em casa. No meio de tudo isso saiu meu primeiro evento da vida, um desafio e tanto.

Julho: Perdemos o hexa mas fomos no show do Pearl Jam, pegamos muita praia e fizemos stand up paddle pela primeira vez. Teve também a memorável despedida da Amanda.

Agosto: Nossa pequena voltou para o Brasil e o Igor veio assumir o papel de terceiro roomie das Ramblas 16. Encontramos a minha prima/irmã Dani em Paris e vivemos 5 dias inesquecíveis. Voltamos para juntas para Barcelona e fomos nas Fiestas de Gracia, Montserrat e Costa Brava – só desaceleramos porque ela pisou em um ouriço e não conseguia mais andar largas distâncias. No final do mês, descobrimos que minha mãe estava com câncer e decidimos antecipar nossa volta ao Brasil. Ainda em agosto, conhecemos o sul da Espanha e o Algarve com minha querida Madri e sua amiga, mas a cabeça já estava a mil com a mudança.

Setembro: Foi o mês de nos despedirmos da nossa amada Espanha. Deixamos nosso lar, nossas plantinhas e os amigos queridos. Deixei também uma grande parte de mim. Ao chegar em terras brasileiras, fomos maravilhosamente recebidos pela família e amigos e nos mudamos para o apartamento 1001 no centro de Curitiba.

Outubro: Foi o mês do encontro do Amor da ALÉM House, o mês em que o meu irmão passou no vestibular de medicina e o mês em que minha mãe fez sua cirurgia e eu fiquei de enfermeira oficial.

Novembro: Fomos para a Chapada dos Veadeiros,  celebramos o casamento dos nossos afilhados amados Priscila e Lucas e teve também o Folia. Comecei a trabalhar no restaurante da Fer e aprendi muito muito muito.

Dezembro: Escrevi um texto por dia. Isso significou o mundo pra mim. Organizamos workshop de numerologia, a Gabi e o Pepe noivaram e conseguimos reunir toda a família para celebrar o Natal. Terminei o ano em Floripa, comemorando a vida ao lado daqueles que mais amo.

Foi um ano feito por pessoas, lugares e experiências únicas. Obrigada por tanto, 2018. Que o ciclo que vem por aí continue me surpreendendo e me fazendo crescer assim.

FELIZ 2019, GENTE! #desafio31diões

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#4/31

Há umas duas semanas mais ou menos, meus pais foram viajar e o João Antônio ficou sozinho em Curitiba.
Na terça-feira, combinamos de nos encontrar no cursinho onde ele estuda, sair jantar e depois dormir lá em casa. Como eu já tinha marcado com a Lu e Amandinha uma ida na meditação no Projeto X perguntei, sem muita esperança, se ele gostaria de ir junto e, para a minha surpresa, ele topou de primeira.

Sempre achei engraçada essa ideia de ser a referência de alguém para qualquer coisa, mas quando se é irmã mais velha isso acaba acontecendo. Me lembro de quando brócolis era o único vegetal que eu gostava e, de repente, minha versão masculina de 6 anos passou a ser fã também. Lembro do orgulho quando ouvia ele cantarolando Arctic Monkeys no outro cômodo ou chorando de rir de algum meme que mandei. Mas, quem tem irmão sabe que não é sempre assim.

Sabendo do bem que me faz a meditação, fiquei muito empolgada e torcendo para que ele gostasse ou, sei lá, sentisse pelo menos alguma coisa boa. Tentei não criar muitas expectativas, porque também sei que precisamos estar bem abertos para entrar nas vibes meditativas e, mesmo assim, tem vezes que é difícil.
Fechamos os olhos.

O tema da meditação naquele dia era gratidão, e a reflexão mexeu muito comigo. Já tínhamos sido avisados no início que possivelmente algumas pessoas teriam vontade de chorar e/ou gargalhar. Eu, como esperado, chorei bastante. Foi a meditação com a qual eu mais me conectei até hoje. Sei que a gente não deve ficar pensando em muita coisa nessas horas, mas eu realmente estava curiosa para saber o que o Johnny estava achando disso tudo.
Quando abrimos os olhos e as luzes se acenderam, vi que ele também tinha se emocionado e chorado suas lágrimas. Depois ele me contou que, durante uma vida de idas na igreja, nunca tinha sentido nada parecido.

Saímos jantar e ele foi a primeira pessoinha a se hospedar no nosso novo apê. Na manhã seguinte, fiz umas panquecas de café da manhã e deixei ele no cursinho. Foi por esses momentos tão significativos disfarçados de corriqueiros que voltei.

Hoje, fomos juntos no Projeto X outra vez 🙂

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#3/31 É sempre bom lembrar

[texto de 11 de maio de 2017]

“Esse aqui é um recado para mim mesma.

Quando você voltar a morar no Brasil, demore o tempo que for, tenho certeza que vai sentir falta de muitas coisas do lado de cá – desse jeito nostálgico e melodramático que você tem.

Vai sentir falta da praia, de fazer tudo a pé, da segurança. Vai dar vontade de comer os pratos preferidos, viajar barato para outro país no final de semana, das coisas legais do trabalho.

Haverão dias onde você vai desejar estar aqui, longe de tudo e todos, livre pra fazer o que bem entender na hora que for. Vai dar vontade de viver só mais um dia sob o Sol Mediterrâneo, falando espanhol e morando nesse apartamento nas Ramblas que pouco a pouco você fez lar. As inesgotáveis opções de restaurantes, os festivais, as corridas na beira da praia, os museus, as Fiestas de Gracia, as ruas estreitas do Born e os quase seis meses de verão são, sem dúvida, dignos de uma saudadinha.

Mas é importante que você se lembre também dos dias de frio, da solidão e da vontade de estar perto da família e amigos. Das vezes que faltaram abraços, colo, festas e as melhores companhias do mundo (que estão aí). Que teve saudades de casa, da cultura e do sorriso brasileiro. Do abraço de mãe, do feijão com arroz, de falar português. Da música ao vivo, das belezas naturais e da nossa gente simples. Do sentimento de ser e pertencer a algum lugar.

E você já sabe disso, como prova esse texto-recado vindo direto do passado. São os grandes trade-offs da vida, né não?  Então me promete uma coisinha: já que você e eu sabemos que o tempo não vai nem volta, aproveita e curte o que tem pra hoje, que, no final das contas, é o melhor jeito de ser feliz.

Eu vou fazendo o mesmo por aqui. É sempre bom lembrar.”

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#2/31

Me lembro da sensação que tive nos primeiros dias de janeiro. Era inverno e eu estava no meu último mês de trabalho na Danone, sem saber ao certo o que seria de 2018. Quando se tem algo mais ou menos sólido em uma vida “clandestina”, dá um aperto de abrir mão.
Durante esse tempo fora, todos os ciclos se abriram e fecharam em um ritmo muito mais rápido do que o normal – tive quatro trabalhos diferentes, fiz muitos amigos que partiram tão de supetão quanto chegaram, mudei de país duas vezes e de endereço outras quatro. Às vezes parece que vivi mais de uma década em meros três anos.
Mas, não fosse o apego aos colegas de trabalho e à rotina tão almejada, eu tinha uma certeza que o ano que começava seria um baita ano. Escrevi no meu caderno “Comecei 2018 muito positiva. Só vejo coisas boas acontecendo, reconheço tantas bençãos recebidas e não tenho dúvidas, muitas alegrias virão por aí. Tô tão animada. Me sinto forte e determinada.”
Saí da Danone, viajei, ajudei o projeto de uma amiga, fiz o Caminho de Santiago, comecei a trabalhar para uma agência de marketing, viajei mais um pouco e voltei de mala e cuia para o meu tão amado Brasil.
Posso dizer sem hesitar que esse foi e ainda é o melhor ano da minha vida até hoje. Tive sim momentos difíceis e de grandes incertezas, mas eles são parte essencial de todo esse movimento louco que é viver, sentir e experimentar.
No #desafio31dioes de hoje, escolhi três fotos que representam os momentos mais significativos de 2018:
#1: Fiz uma viagem que me tocou de verdade. Conheci um pouquinho do outro lado do mundo e abri meus olhos não só para paisagens e templos maravilhosos, mas para uma nova forma de ver a vida.
#2: Caminhei 800km ao lado da pessoa que mais amo nessa vida.
#3: Voltei pra perto dessas 3 pessoinhas que são tudo e mais um pouco. Não estamos só perto, estamos mais juntos do que nunca ❤️

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#1/31

Eu não tenho grandes aspirações com minha escrita. De verdade. Talvez por isso seja tão difícil fazer dela um hábito.
Eu só sei que quando escrevo e largo no mundo alguma coisa que vem de dentro da minha alma, uma pequena festa acontece em mim.
Um misto de coragem, delírio (porque se expor por vontade própria é meio coisa de louco mesmo), euforia e medo. E por conta desse último, tenho tantas notas e rascunhos que se perderam do que poderiam ser.
É como quando entro no mar e a água bate na cintura. Friorenta que sou, posso ficar muito tempo “sofrendo” na beira do mar ou mesmo dar meia volta e me sentar na areia. Mas quem não morre não vê Deus, nem toma banho de mar e muito menos escreve coisas bonitas.
No último verão fiz um acordo comigo que mergulharia antes do frio me travar. Tomei mais banhos de mar do que jamais havia tomado e a sensação foi boa demais.
É assim que quero escrever. Porque quando a onda vem, a gente tem que mergulhar fundo. Ou pegar jacaré. #desafio31dioes

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CAMINHO // 3 – Os dias chuvosos

Acordamos com bastante chuva. O rio perto do nosso albergue transbordou durante a noite e molhou todas as roupas que estavam secando no porão. Tomamos um café da manhã típico do Caminho – torradas e café com leite – servido pelas senhorinhas alemãs. O tempo estava tão ruim que deu vontade de passar um dia a mais naquela casinha aconchegante.

Mesmo querendo ficar, calçamos as botas e nos vestimos com as roupas e capa de chuva. O início do dia foi atravessando Pamplona. Era um domingo de manhã e as luzes ainda acesas refletiam nas poças de água que se formavam na rua de pedra.

Depois dos primeiros quilômetros senti muita fraqueza, uma moleza nas pernas. Aguentamos até encontrar um restaurante em Cizur Menor com mochilas esparramadas na frente – sinal de pit stop de peregrinos. No “Asador, el Tremendo” tomamos chocolate bem quente e sentamos ao lado uma lareira para descansar e secar as roupas. Carimbamos o passaporte, juntamos forças e seguimos. Passamos pelo Alto del Perdón, lugar realmente altíssimo que tem uma das vistas mais bonitas do Caminho, mas o dia estava tão chuvoso e nublado que não dava pra ver nada. Passamos meio batido por lá.

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Os peregrinos não andam sempre juntos, mas como a média de kms possíveis de ser feitos diariamente por um ser humano a pé é mais ou menos a mesma, vamos encontrando mais ou menos as mesmas pessoas nas paradas.

Já nos primeiros dias, entendi que éramos personagens do Caminho. A mãe e a filha. As únicas da modalidade no nosso grupo. Tinham também outras categorias, como “a família feliz” – 4 americanos muito simpáticos e sorridentes, de um bom humor aparentemente inabalável pelos dias de chuva, “as amigas” – 8 mulheres de meia idade que faziam o caminho juntas, “o italianão” – senhor que se achava um galã e tentava chegar em todas as peregrinas, “os jovens descolados” – de maioria alemã, que se conheceram no começo e faziam festa, tocavam violão e sempre estavam nos bares no final da tarde e, claro, os coreanos. Muitos coreanos.

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No quinto dia, em Puente de la Reina, minha mãe começou a sentir muita dor no tornozelo. A bota pegava bem no ossinho e fazia uma fricção insuportável a ponto de ela não conseguir nem andar alguns metros para chegar ao centro da cidade. Precisávamos encontrar um novo calçado pra ela, mas o comércio só abriria em 2 horas.

Paramos em um bareco pé sujo até que as lojas começaram a abrir. Tomamos café, escrevemos um pouco e esperamos, um tanto ansiosas, para saber se encontraríamos algo que ajudasse a caminhar os 22km programados para o dia. Perto das 10 da manhã, o dono do bar, que já sabia do nosso drama, veio nos avisar que a sapateira – sim, a única da cidade – estava doente e não abriria a loja.

Começamos a pensar nas opções. Não poderíamos ficar na cidade porque já tínhamos mandado a mochila da mãe de van para tentar aliviar a dificuldade. Fomos até a farmácia, tentamos tornozeleira, gel frio, e faixas. Tentamos trocar de bota. Encontramos uma alpargata, mas não resistiria à lama e às chuvas que iam e vinham durante o dia. Negamos até o último minuto a solução mais sensata: pegar um ônibus para a próxima cidade.

Meu coração estava dividido. Queria ir caminhando, não de ônibus. Me sentia boicotando o Caminho por “desistir” na primeira dificuldade. Não queria deixar a minha mãe sozinha, mas ao mesmo tempo sabia que ela conseguiria se virar. Comecei a ficar nervosa.

Disse a ela que queria ir sozinha. Ela, sem conseguir caminhar nem meia quadra, disse que se eu fosse ela ficaria muito preocupada, então iria junto. Fiquei mais nervosa. Disse que não era justo, que ela não tinha condições de caminhar e eu sim, e queria muito continuar. Ela disse que se eu quisesse ir, ela iria tentar. Mas não tinha cabimento ela caminhar no estado que estava.

Talvez seja isso o companheirismo? Respeitar o tempo e as limitações do outro mesmo quando isso envolve abrir mão do que eu posso/quero? Ou o certo seria que cada uma seguisse seu caminho, literalmente? Sei lá.

O sentimento ruim foi subindo do meu estômago para a garganta e eu já não conseguia mais falar com ela. Nisso, o ônibus chegou no ponto. No auge da minha brabeza, decidi que iríamos as duas. Atravessamos a rua correndo, guardamos nossas mochilas no porta malas e subi no ônibus chorando de raiva. Raiva. Nem sei a última vez que tinha sentido algo do tipo. E justo ali, nessa situação e com a pessoa que eu mais amo, nesse caminho que era pra ser todo zen.

Não queria nem sentar ao lado dela. Fui chorando os 20 minutos de viagem. Me sentia um fracasso por ter pego um ônibus no 5o dia de caminho e culpada por ter sido tão infantil e ríspida. Fiquei tão nervosa que dava vontade de vomitar (hello, gastrite!). Do outro lado do corredor, minha mãe também chorava.

Chegamos em Estella e o frio gelou os ossos. Fomos em busca de uma loja de calçados encontramos um tênis impermeável para a mãe. Enquanto ela provava e caminhava pela loja, troquei umas mensagens com a Sara (quase minha guru do caminho) que me mandou a seguinte mensagem:

“São encontros não tão prazerosos com as nossas frustrações… Longe da vida diária, aí no Caminho, parece tudo mais intenso. Veja como uma oportunidade pra reconhecer o sabor desses sentimentos, como você lida com eles, o que eles te trazem.. Acho que se você está disposta a se conhecer, será bem vindo tudo isso! E como me disseram – o Caminho te dá o que você precisa, não o que você quer!”.

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Paramos para almoçar. Fizemos as pazes, pedi desculpas umas boas vezes. Mas ainda estávamos chateadas. Entre uma taça de vinho e outra, decidimos buscar a mochila e andar até a próxima parada já que agora tínhamos um calçado bom para a Saletinha. Com a ideia de caminhar, ficamos animadas, nos abraçamos mais uma vez e perdoamos uma à outra. Vestimos nossas capas de chuva e seguimos. Nossa decisão de fazer esses poucos kms do dia foi um reatar ao nosso propósito. Deixamos ir. Deixamos passar e aceitamos.

Entendi ali que o que não dá pra mudar só nos cabe aceitar com amor e, a partir das pazes feitas com o que já foi, entender a mensagem e seguir em frente mais com mais convicção e força possível.

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Chegamos em Azqueta, no alto da encosta estava o Albergue Perla Negra (que poderia perfeitamente ser a casa da Luna Lovegood). Realmente uma pérola, uma jóia na vila escondida no meio das montanhas de Navarra.

Quem nos recebeu foi a Helena, dona da casa, toda descabelada, alegre e carinhosa. Ela nos deu jornal para colocar dentro das botas (para absorver a umidade da chuva), nos levou ao quartinho no sótão onde também ficava a mesa de jantar. As paredes de pedra e a decoração hippie colorida não poderiam combinar mais com a anfitriã. Tomamos um banho quente e descansamos. Ganhei um colo e um cafuné da mãe.

A Helena fez um jantar vegetariano maravilhoso, e nos deu a receita para sua tortilla de batata campeã (eleita em um concurso municipal quando ela tinha só 11 anos). Conversamos sobre a vida e sobre a comida do gato Amet, que sofria de obesidade. Nós éramos as únicas hóspedes junto com um americano-escritor-veterinário-estudioso-de-cavalos-e-gatos, e o Filipino de Boston, Gwan. Fazia muito frio e dormimos enterradas nas cobertas.

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Tomamos café na casa da Helena e nos preparamos para partir. Ela insistiu que fizéssemos ‘bocatas’ – os sanduíches dos espanhóis – com a tortilla que sobrou do jantar. Muito amada. Na saída, ela nos contou sobre o Marcelo, um amigo brasileiro que a ajudou financeira e emocionalmente a começar o albergue em um momento muito difícil para ela, quando se tornou mãe solo há alguns anos. Seus olhos se encheram de lágrimas e os da minha mãe também. Nos abraçamos forte e colocamos o pé na estrada outra vez.

 

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Pamplona

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Esperando a loja de sapatos que nunca abriu

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A Helena do Albergue Perla Negra

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Belíssimas e o tempo estava ótimo

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