CAMINHO // 4 – My Way

Depois de mais um dia de caminhada com vento, lama e chuva, chegamos a um albergue na cidade de Sansol. O frio entrava pelas frestas da parede de madeira e tirar a roupa para entrar no chuveiro parecia uma tortura. Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo por uns minutos e foi o melhor presente que eu poderia me dar.

É engraçada a relação com o físico e a exaustão. Sinto que exigi ao máximo desse instrumento que é o meu corpo durante o Caminho. Também senti carinho e prazer em cuidá-lo: tomando um bom banho, passando hidratante nos pés para não fazer bolha, mantendo aquecido e comendo bem (na medida do possível).

Outra coisa que gostei muito foi de ter poucos pertences comigo. Achei tão mais fácil me organizar e perdi muito pouco – ou nenhum –  tempo decidindo o que vestir. Acho que não tem mesmo espaço para o supérfluo na peregrinação – pesa demais e ninguém quer carregar tranqueira nas costas.

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Depois do banho, passei umas três horas escrevendo ao lado de um aquecedor e dediquei algum tempo a subir as fotos no Instagram. Recebemos mensagens de incentivo de mais de 20 pessoas nessa noite. Antes do Caminho, eu estava na dúvida entre compartilhar ou não a nossa experiência no Instagram, mas a hora de postar acabou sendo um momento legal do dia para fazer um resuminho e receber um incentivo e energia extra de pessoas queridas.

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No dia seguinte, rumo a Logroño, paramos depois do décimo primeiro quilômetro para um café. Entramos na cidade e fomos a um bar bem espanhol raiz. As pessoas passavam ali no intervalo do trabalho, liam jornal, levavam os bebês no carrinho, comiam um “bikini” com um cortado, jogavam caça níquel e uns senhores já bebiam a pinguinha às 10h da manhã. Zero instagramável, tudo 100% autêntico.

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Acordamos suadas do bafo que fazia dentro do domitório no Albergue Municipal de Logroño. Saímos para a caminhada e, depois de uns 6km, o tão esperado SOL saiu. Depois de semanas de chuva e mau tempo, como que por um milagre as paisagens foram pintadas pela luz desse astro maravilhoso que decidiu finalmente dar o ar da graça. Renovou nossas energias, fez mais fácil apreciar as vistas e esquentar o corpitcho. Para completar o dia, chegamos a uma das minhas cidades preferidas de toda peregrinação: Nájera.

Ficamos em um albergue gratuito com um hippie que parecia o Dumbledore na recepção. Saímos para almoçar e acabamos passando o resto da tarde em um bar na beira do rio com os outros peregrinos. Com as cadeiras ao sol e as pernas esticadas, pedimos um vinho Rioja do bom e relaxamos. Depois de algumas taças, minha mãe já não sentía mais dor nenhuma nas pernas. Acabamos com nosso vino blanco,  fomos ao mercado comprar chocolate e iogurte, e tivemos uma crise de riso que só passou depois de vermos o sol se por da ponte.

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Aproveitamos os dias que caminhavamos sozinhas para conversar sobre tudo. Uma manhã, depois de parar no café “My Way” – de uma trilha sonora impecável – conversamos sobre o início do meu relacionamento com o Oliver e sobre esse período que foi um dos mais difíceis para mim. Contei dos CDs, do empadão e dos sorvetes. Por estarmos sensíveis, foi mais fácil acessar os sentimentos da época. A confusão no meu coração, toda a dificuldade em me entender e de me abrir com outras pessoas. Chorei ao relembrar alguns momentos, mas, ao mesmo tempo, tive orgulho da minha coragem, dos bons momentos em que me senti tão amada, dos novos horizontes que iluminavam os caminhos incertos. Lembrei do apoio que recebi dos bons amigos e de quem eu menos esperava.

Nesse dia, não tivemos pressa em chegar. Nos distraímos com as conversas, paramos para curtir as paisagens e os lanches e aproveitamos mais a jornada. É incrível quantos paralelos podemos fazer a partir dessas pequenas observações. Nos propusemos a aproveitar mais a caminhada em si. A graça está na viagem, afinal. Chegar é um mero detalhe.

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Fomos a uma missa com benção aos peregrinos na cidade de Belorado. O padre cantou algumas canções e perguntou se alguém gostaria de cantar em sua própria língua. Em um ímpeto de emoção, minha mãe começou a cantar uma música de Nossa Senhora e eu acompanhei. Nossas vozes ecoavam na igreja quase vazia quando, de surpresa, uma americana começou a cantar conosco em português e outros peregrinos acompanhavam o ritmo. Senti meu corpo arrepiar inteiro.

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Era nosso último dia  só entre mãe e filha. A Saletinha estava bem sensível e emocionada, foi a vez dela de desabafar. Andamos de braços dados para nos esquentarmos – estava frio outra vez. Nos perdemos da rota principal e, na tentativa de cortar caminho, acabamos no meio de uma plantação e nos sujamos inteiras de barro. O melhor de tudo foi ver os outros peregrinos que nos seguiam também atolarem no meio da lama e caírem na risada.

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Chegamos em Burgos onde encontraríamos com o Oliver que chegava de trem direto de Barcelona. O albergue municipal era maravilhoso e, por sorte, conseguimos três camas juntas. Três, nosso novo número dali para frente.

 

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