#2/31

Me lembro da sensação que tive nos primeiros dias de janeiro. Era inverno e eu estava no meu último mês de trabalho na Danone, sem saber ao certo o que seria de 2018. Quando se tem algo mais ou menos sólido em uma vida “clandestina”, dá um aperto de abrir mão.
Durante esse tempo fora, todos os ciclos se abriram e fecharam em um ritmo muito mais rápido do que o normal – tive quatro trabalhos diferentes, fiz muitos amigos que partiram tão de supetão quanto chegaram, mudei de país duas vezes e de endereço outras quatro. Às vezes parece que vivi mais de uma década em meros três anos.
Mas, não fosse o apego aos colegas de trabalho e à rotina tão almejada, eu tinha uma certeza que o ano que começava seria um baita ano. Escrevi no meu caderno “Comecei 2018 muito positiva. Só vejo coisas boas acontecendo, reconheço tantas bençãos recebidas e não tenho dúvidas, muitas alegrias virão por aí. Tô tão animada. Me sinto forte e determinada.”
Saí da Danone, viajei, ajudei o projeto de uma amiga, fiz o Caminho de Santiago, comecei a trabalhar para uma agência de marketing, viajei mais um pouco e voltei de mala e cuia para o meu tão amado Brasil.
Posso dizer sem hesitar que esse foi e ainda é o melhor ano da minha vida até hoje. Tive sim momentos difíceis e de grandes incertezas, mas eles são parte essencial de todo esse movimento louco que é viver, sentir e experimentar.
No #desafio31dioes de hoje, escolhi três fotos que representam os momentos mais significativos de 2018:
#1: Fiz uma viagem que me tocou de verdade. Conheci um pouquinho do outro lado do mundo e abri meus olhos não só para paisagens e templos maravilhosos, mas para uma nova forma de ver a vida.
#2: Caminhei 800km ao lado da pessoa que mais amo nessa vida.
#3: Voltei pra perto dessas 3 pessoinhas que são tudo e mais um pouco. Não estamos só perto, estamos mais juntos do que nunca ❤️

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#1/31

Eu não tenho grandes aspirações com minha escrita. De verdade. Talvez por isso seja tão difícil fazer dela um hábito.
Eu só sei que quando escrevo e largo no mundo alguma coisa que vem de dentro da minha alma, uma pequena festa acontece em mim.
Um misto de coragem, delírio (porque se expor por vontade própria é meio coisa de louco mesmo), euforia e medo. E por conta desse último, tenho tantas notas e rascunhos que se perderam do que poderiam ser.
É como quando entro no mar e a água bate na cintura. Friorenta que sou, posso ficar muito tempo “sofrendo” na beira do mar ou mesmo dar meia volta e me sentar na areia. Mas quem não morre não vê Deus, nem toma banho de mar e muito menos escreve coisas bonitas.
No último verão fiz um acordo comigo que mergulharia antes do frio me travar. Tomei mais banhos de mar do que jamais havia tomado e a sensação foi boa demais.
É assim que quero escrever. Porque quando a onda vem, a gente tem que mergulhar fundo. Ou pegar jacaré. #desafio31dioes

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CAMINHO // 4 – My Way

Depois de mais um dia de caminhada com vento, lama e chuva, chegamos a um albergue na cidade de Sansol. O frio entrava pelas frestas da parede de madeira e tirar a roupa para entrar no chuveiro parecia uma tortura. Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo por uns minutos e foi o melhor presente que eu poderia me dar.

É engraçada a relação com o físico e a exaustão. Sinto que exigi ao máximo desse instrumento que é o meu corpo durante o Caminho. Também senti carinho e prazer em cuidá-lo: tomando um bom banho, passando hidratante nos pés para não fazer bolha, mantendo aquecido e comendo bem (na medida do possível).

Outra coisa que gostei muito foi de ter poucos pertences comigo. Achei tão mais fácil me organizar e perdi muito pouco – ou nenhum –  tempo decidindo o que vestir. Acho que não tem mesmo espaço para o supérfluo na peregrinação – pesa demais e ninguém quer carregar tranqueira nas costas.

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Depois do banho, passei umas três horas escrevendo ao lado de um aquecedor e dediquei algum tempo a subir as fotos no Instagram. Recebemos mensagens de incentivo de mais de 20 pessoas nessa noite. Antes do Caminho, eu estava na dúvida entre compartilhar ou não a nossa experiência no Instagram, mas a hora de postar acabou sendo um momento legal do dia para fazer um resuminho e receber um incentivo e energia extra de pessoas queridas.

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No dia seguinte, rumo a Logroño, paramos depois do décimo primeiro quilômetro para um café. Entramos na cidade e fomos a um bar bem espanhol raiz. As pessoas passavam ali no intervalo do trabalho, liam jornal, levavam os bebês no carrinho, comiam um “bikini” com um cortado, jogavam caça níquel e uns senhores já bebiam a pinguinha às 10h da manhã. Zero instagramável, tudo 100% autêntico.

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Acordamos suadas do bafo que fazia dentro do domitório no Albergue Municipal de Logroño. Saímos para a caminhada e, depois de uns 6km, o tão esperado SOL saiu. Depois de semanas de chuva e mau tempo, como que por um milagre as paisagens foram pintadas pela luz desse astro maravilhoso que decidiu finalmente dar o ar da graça. Renovou nossas energias, fez mais fácil apreciar as vistas e esquentar o corpitcho. Para completar o dia, chegamos a uma das minhas cidades preferidas de toda peregrinação: Nájera.

Ficamos em um albergue gratuito com um hippie que parecia o Dumbledore na recepção. Saímos para almoçar e acabamos passando o resto da tarde em um bar na beira do rio com os outros peregrinos. Com as cadeiras ao sol e as pernas esticadas, pedimos um vinho Rioja do bom e relaxamos. Depois de algumas taças, minha mãe já não sentía mais dor nenhuma nas pernas. Acabamos com nosso vino blanco,  fomos ao mercado comprar chocolate e iogurte, e tivemos uma crise de riso que só passou depois de vermos o sol se por da ponte.

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Aproveitamos os dias que caminhavamos sozinhas para conversar sobre tudo. Uma manhã, depois de parar no café “My Way” – de uma trilha sonora impecável – conversamos sobre o início do meu relacionamento com o Oliver e sobre esse período que foi um dos mais difíceis para mim. Contei dos CDs, do empadão e dos sorvetes. Por estarmos sensíveis, foi mais fácil acessar os sentimentos da época. A confusão no meu coração, toda a dificuldade em me entender e de me abrir com outras pessoas. Chorei ao relembrar alguns momentos, mas, ao mesmo tempo, tive orgulho da minha coragem, dos bons momentos em que me senti tão amada, dos novos horizontes que iluminavam os caminhos incertos. Lembrei do apoio que recebi dos bons amigos e de quem eu menos esperava.

Nesse dia, não tivemos pressa em chegar. Nos distraímos com as conversas, paramos para curtir as paisagens e os lanches e aproveitamos mais a jornada. É incrível quantos paralelos podemos fazer a partir dessas pequenas observações. Nos propusemos a aproveitar mais a caminhada em si. A graça está na viagem, afinal. Chegar é um mero detalhe.

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Fomos a uma missa com benção aos peregrinos na cidade de Belorado. O padre cantou algumas canções e perguntou se alguém gostaria de cantar em sua própria língua. Em um ímpeto de emoção, minha mãe começou a cantar uma música de Nossa Senhora e eu acompanhei. Nossas vozes ecoavam na igreja quase vazia quando, de surpresa, uma americana começou a cantar conosco em português e outros peregrinos acompanhavam o ritmo. Senti meu corpo arrepiar inteiro.

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Era nosso último dia  só entre mãe e filha. A Saletinha estava bem sensível e emocionada, foi a vez dela de desabafar. Andamos de braços dados para nos esquentarmos – estava frio outra vez. Nos perdemos da rota principal e, na tentativa de cortar caminho, acabamos no meio de uma plantação e nos sujamos inteiras de barro. O melhor de tudo foi ver os outros peregrinos que nos seguiam também atolarem no meio da lama e caírem na risada.

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Chegamos em Burgos onde encontraríamos com o Oliver que chegava de trem direto de Barcelona. O albergue municipal era maravilhoso e, por sorte, conseguimos três camas juntas. Três, nosso novo número dali para frente.

 

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CAMINHO // 3 – Os dias chuvosos

Acordamos com bastante chuva. O rio perto do nosso albergue transbordou durante a noite e molhou todas as roupas que estavam secando no porão. Tomamos um café da manhã típico do Caminho – torradas e café com leite – servido pelas senhorinhas alemãs. O tempo estava tão ruim que deu vontade de passar um dia a mais naquela casinha aconchegante.

Mesmo querendo ficar, calçamos as botas e nos vestimos com as roupas e capa de chuva. O início do dia foi atravessando Pamplona. Era um domingo de manhã e as luzes ainda acesas refletiam nas poças de água que se formavam na rua de pedra.

Depois dos primeiros quilômetros senti muita fraqueza, uma moleza nas pernas. Aguentamos até encontrar um restaurante em Cizur Menor com mochilas esparramadas na frente – sinal de pit stop de peregrinos. No “Asador, el Tremendo” tomamos chocolate bem quente e sentamos ao lado uma lareira para descansar e secar as roupas. Carimbamos o passaporte, juntamos forças e seguimos. Passamos pelo Alto del Perdón, lugar realmente altíssimo que tem uma das vistas mais bonitas do Caminho, mas o dia estava tão chuvoso e nublado que não dava pra ver nada. Passamos meio batido por lá.

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Os peregrinos não andam sempre juntos, mas como a média de kms possíveis de ser feitos diariamente por um ser humano a pé é mais ou menos a mesma, vamos encontrando mais ou menos as mesmas pessoas nas paradas.

Já nos primeiros dias, entendi que éramos personagens do Caminho. A mãe e a filha. As únicas da modalidade no nosso grupo. Tinham também outras categorias, como “a família feliz” – 4 americanos muito simpáticos e sorridentes, de um bom humor aparentemente inabalável pelos dias de chuva, “as amigas” – 8 mulheres de meia idade que faziam o caminho juntas, “o italianão” – senhor que se achava um galã e tentava chegar em todas as peregrinas, “os jovens descolados” – de maioria alemã, que se conheceram no começo e faziam festa, tocavam violão e sempre estavam nos bares no final da tarde e, claro, os coreanos. Muitos coreanos.

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No quinto dia, em Puente de la Reina, minha mãe começou a sentir muita dor no tornozelo. A bota pegava bem no ossinho e fazia uma fricção insuportável a ponto de ela não conseguir nem andar alguns metros para chegar ao centro da cidade. Precisávamos encontrar um novo calçado pra ela, mas o comércio só abriria em 2 horas.

Paramos em um bareco pé sujo até que as lojas começaram a abrir. Tomamos café, escrevemos um pouco e esperamos, um tanto ansiosas, para saber se encontraríamos algo que ajudasse a caminhar os 22km programados para o dia. Perto das 10 da manhã, o dono do bar, que já sabia do nosso drama, veio nos avisar que a sapateira – sim, a única da cidade – estava doente e não abriria a loja.

Começamos a pensar nas opções. Não poderíamos ficar na cidade porque já tínhamos mandado a mochila da mãe de van para tentar aliviar a dificuldade. Fomos até a farmácia, tentamos tornozeleira, gel frio, e faixas. Tentamos trocar de bota. Encontramos uma alpargata, mas não resistiria à lama e às chuvas que iam e vinham durante o dia. Negamos até o último minuto a solução mais sensata: pegar um ônibus para a próxima cidade.

Meu coração estava dividido. Queria ir caminhando, não de ônibus. Me sentia boicotando o Caminho por “desistir” na primeira dificuldade. Não queria deixar a minha mãe sozinha, mas ao mesmo tempo sabia que ela conseguiria se virar. Comecei a ficar nervosa.

Disse a ela que queria ir sozinha. Ela, sem conseguir caminhar nem meia quadra, disse que se eu fosse ela ficaria muito preocupada, então iria junto. Fiquei mais nervosa. Disse que não era justo, que ela não tinha condições de caminhar e eu sim, e queria muito continuar. Ela disse que se eu quisesse ir, ela iria tentar. Mas não tinha cabimento ela caminhar no estado que estava.

Talvez seja isso o companheirismo? Respeitar o tempo e as limitações do outro mesmo quando isso envolve abrir mão do que eu posso/quero? Ou o certo seria que cada uma seguisse seu caminho, literalmente? Sei lá.

O sentimento ruim foi subindo do meu estômago para a garganta e eu já não conseguia mais falar com ela. Nisso, o ônibus chegou no ponto. No auge da minha brabeza, decidi que iríamos as duas. Atravessamos a rua correndo, guardamos nossas mochilas no porta malas e subi no ônibus chorando de raiva. Raiva. Nem sei a última vez que tinha sentido algo do tipo. E justo ali, nessa situação e com a pessoa que eu mais amo, nesse caminho que era pra ser todo zen.

Não queria nem sentar ao lado dela. Fui chorando os 20 minutos de viagem. Me sentia um fracasso por ter pego um ônibus no 5o dia de caminho e culpada por ter sido tão infantil e ríspida. Fiquei tão nervosa que dava vontade de vomitar (hello, gastrite!). Do outro lado do corredor, minha mãe também chorava.

Chegamos em Estella e o frio gelou os ossos. Fomos em busca de uma loja de calçados encontramos um tênis impermeável para a mãe. Enquanto ela provava e caminhava pela loja, troquei umas mensagens com a Sara (quase minha guru do caminho) que me mandou a seguinte mensagem:

“São encontros não tão prazerosos com as nossas frustrações… Longe da vida diária, aí no Caminho, parece tudo mais intenso. Veja como uma oportunidade pra reconhecer o sabor desses sentimentos, como você lida com eles, o que eles te trazem.. Acho que se você está disposta a se conhecer, será bem vindo tudo isso! E como me disseram – o Caminho te dá o que você precisa, não o que você quer!”.

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Paramos para almoçar. Fizemos as pazes, pedi desculpas umas boas vezes. Mas ainda estávamos chateadas. Entre uma taça de vinho e outra, decidimos buscar a mochila e andar até a próxima parada já que agora tínhamos um calçado bom para a Saletinha. Com a ideia de caminhar, ficamos animadas, nos abraçamos mais uma vez e perdoamos uma à outra. Vestimos nossas capas de chuva e seguimos. Nossa decisão de fazer esses poucos kms do dia foi um reatar ao nosso propósito. Deixamos ir. Deixamos passar e aceitamos.

Entendi ali que o que não dá pra mudar só nos cabe aceitar com amor e, a partir das pazes feitas com o que já foi, entender a mensagem e seguir em frente mais com mais convicção e força possível.

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Chegamos em Azqueta, no alto da encosta estava o Albergue Perla Negra (que poderia perfeitamente ser a casa da Luna Lovegood). Realmente uma pérola, uma jóia na vila escondida no meio das montanhas de Navarra.

Quem nos recebeu foi a Helena, dona da casa, toda descabelada, alegre e carinhosa. Ela nos deu jornal para colocar dentro das botas (para absorver a umidade da chuva), nos levou ao quartinho no sótão onde também ficava a mesa de jantar. As paredes de pedra e a decoração hippie colorida não poderiam combinar mais com a anfitriã. Tomamos um banho quente e descansamos. Ganhei um colo e um cafuné da mãe.

A Helena fez um jantar vegetariano maravilhoso, e nos deu a receita para sua tortilla de batata campeã (eleita em um concurso municipal quando ela tinha só 11 anos). Conversamos sobre a vida e sobre a comida do gato Amet, que sofria de obesidade. Nós éramos as únicas hóspedes junto com um americano-escritor-veterinário-estudioso-de-cavalos-e-gatos, e o Filipino de Boston, Gwan. Fazia muito frio e dormimos enterradas nas cobertas.

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Tomamos café na casa da Helena e nos preparamos para partir. Ela insistiu que fizéssemos ‘bocatas’ – os sanduíches dos espanhóis – com a tortilla que sobrou do jantar. Muito amada. Na saída, ela nos contou sobre o Marcelo, um amigo brasileiro que a ajudou financeira e emocionalmente a começar o albergue em um momento muito difícil para ela, quando se tornou mãe solo há alguns anos. Seus olhos se encheram de lágrimas e os da minha mãe também. Nos abraçamos forte e colocamos o pé na estrada outra vez.

 

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Pamplona

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Esperando a loja de sapatos que nunca abriu

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A Helena do Albergue Perla Negra

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Belíssimas e o tempo estava ótimo

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Sempre e principalmente quando

Não nos desencorajemos, já temos muita gente que o faça por nós.

Vamos cantar desafinadas, se for esse o tom que nossa alma quer ouvir.

Vamos pintar obras feias,

Vamos desenhar linhas tortas,

Vamos tirar fotos toscas,

Vamos declamar poesias mortas,

Vamos escrever os textos dos nossos diários,

Vamos deixar fluir o rio criativo que corre dentro de nós.

Ontem comecei a ler um livro horroroso. Horroso mesmo. De um cara X, mas que agora é best-seller e tá lá nas primeiras prateleiras – por qualquer que seja o motivo. Eu mesma já vi mulheres escrevendo em guardanapos sujos mensagens tão, mas tão mais importantes, dobrando e guardando no bolso.

Não nos deixemos calar por ninguém (muito menos por nós mesmas),

Não sejamos tão críticas,

Não nos cobremos tanto.

Vamos dar voz à nossa intuição,

Vamos nos manifestar,

Mesmo, sempre e principalmente quando nos pareça pouco,

Quando nos pareça simples,

Quando nos pareça insosso.

Caminho // 2 – O começo

Saímos de Saint Jean às 7h30 da manhã enquanto o sol ainda nascia. Estávamos ansiosas para o primeiro dia, conhecido por ser um ou O mais difícil de todo Caminho. Ouvimos dizer que quem aguenta o primeiro, aguenta todos.

Na verdade, ouvimos muita coisa. Que os primeiros dias seriam os mais difíceis, que acostuma, que a experiência do Caminho muda a vida pra sempre, que seria inesquecível, que existe um você antes e outro depois de chegar a Santiago. Tem gente que encontrou Deus, gente que mergulhou em si mesmo, que presenciou milagres, que conheceu o amor da vida, que largou o emprego e foi viver de luz. E tem nós.

Nós sonhávamos com o dia em que colocaríamos nossos pés no asfalto. Fora isso, não sabíamos o que esperar.

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Seriam 27km dos quais 21 eram só subida e os últimos de descida extremamente íngreme. Os primeiros passos me fizeram sentir aquela curiosidade de criança. Minha vontade era ir correndo para descobrir o que seria a tal subida dos Pirineus, quem eram os outros peregrinos, como seriam os albergues que dormiriamos. Minha Mãe estava preocupada com os joelhos (se recuperava de uma tendinite), tentando ajeitar a bota e acertar as alças da mochila.

Os primeiros 5 ou 6km foram, para mim, os mais difíceis – não sei se por serem mais íngremes, pela falta de café da manhã (só tinhamos comido uma banana cada) ou por serem os primeiros mesmo. No Refúgio Orisson, primeira e única parada do trajeto, tomamow um café com leite, comemos bocadillos e um bolo típico do País Basco. A comida nos deu energia e os próximos 10km foram bem mais fáceis e animados. Dançamos, tiramos fotos e cantamos. Os Pirineus já não pareciam um bicho de sete cabeças.

O sol da manhã contornava as montanhas que tinham seus picos cobertos de neve. A paisagem era de encher os olhos e o tempo nos ajudou muito. Foi um presente de dia. Subimos, subimos e subimos um pouco mais. Quando parecia que não dava pra ficar mais alto, aparecia um baita morro na nossa frente.

Depois de umas 6 horas de caminhada, finalmente começamos a descer. Em meio a montes de neve derretendo e folhas de árvore acumuladas pelo trajeto, fomos fazendo os kilometros restantes até Roncesvalles.  Penso em quão sortuda sou de estar ali e poder viver esse momento ao lado da pessoa que mais amo nesse mundo.

Chegamos. O albergue era enorme, iluminado e com cabines de duas pessoas, muito melhor do que a expectativa. Mas o banho era frio. Depois de 27km, aquela ducha fria no inverno foi o cartão de boas vindas para o Caminho. Teve janta comunitária e uma missa com benção para os peregrinos em várias línguas.

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O albergue acendeu as luzes às 6 da manhã. Todas as mais de 50 pessoas que estavam dormindo no nosso andar começaram a arrumar as mochilas e fazer fila no banheiro.

Ainda estava escuro e a lua iluminava o céu entre as árvores ainda sem folhas. Caminhamos até um pueblo onde paramos para o café. O dono do bar me contou a história da ‘Flor dos Pirineus’, que  só nasce ali na região e que os bascos acreditavam que era proteção contra duendes e criaturas das sobras. Comprei um adesivo pra levar na mochila. Nunca se sabe.

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Nós somos bem diferentes, e isso começa a ficar mais evidente à medida que os dias passam. Ela é super prevenida e gosta de pensar em tudo. Eu sou mais descuidada e vou improvisando. Ela gosta de fazer a caminhada “em um tiro só” e eu prefiro ir parando cada pouco. Eu tenho fome o tempo inteiro e ela fica satisfeita com uma boa refeição por dia.

Aproveitamos as horas de trilha para conversar sobre as coisas que aconteceram nos últimos meses. Faz tanta falta dividir a vida com ela. Andamos lado a lado, às vezes de mãos dadas. Dividimos tudo. Passamos shampoo por cima do box, seguramos a porta dos banheiros que não fechavam. Brindamos com vinho sempre que incluído no menu peregrino e escolhemos algo diferente para agradecer.

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No final do terceiro dia conhecemos o Nicola. Um senhor italiano de 70 anos que fazia o caminho pela oitava vez. Ele contou (em italiano mesmo) que a primeira vez foi quando a esposa dele faleceu e, desde então, faz todos os anos. Quando perguntei o que fazia ele voltar ele disse – O caminho é arte, poesia e música. Seu Nicola ❤

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Pegamos muito frio e chuva e chegar ao albergue de Pamplona foi um abraço no coração. Umas senhorinhas alemãs que trabalhavam como voluntárias ali nos receberam com chá quente e bolacha maria. O banho era tão quente que fechei os olhos e deixei a água escorrer pelo corpo por uns minutos.

Mesmo exaustas, nos vestimos e saímos para jantar e ver um pouco da cidade. Tomamos umas taças de vinho e comemos uns pintxos muito bons no Bar do Gaúcho. Quando nos demos conta estávamos andando pela cidade falando bobagem e chorando de rir.

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Caminho // 1 – Antes

Era dia 8 de janeiro. Quando eu voltava do meu horário de almoço o celular notificou que eu tinha um novo e-mail na caixa de entrada:

“Já estou emocionada, com os olhos marejados e o coração palpitando de felicidade! Será um desafio único e inesquecível. Vamos nos unir mais um pouco e aprender uma com a outra muitas coisas lindas sobre nós mesmas. TENHO CERTEZA QUE VAI SER MUUUUITO LINDO! TE AMO, MAMIS”

Em anexo estava a confirmação de compra das suas passagens de avião. O coração quase parou. Agora vai.

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Perdi a conta de quantos checklists fizemos nas semanas que antecederam o Caminho. Eu e minha mãe nos ligamos várias vezes para ter certeza de que não faltava nada. Meias, toalhas, sacos de dormir, arnica, tesourinha. Check. Vimos dicas na internet, nos mandamos links e conversamos com nossos amigos queridos e peregrinos veteranos.

Falei com a Gabi e com a Tia Cláudia por mais de uma hora. Elas deram dicas do que levar ou não, alguns albergues preferidos e uma pomada que é tiro e queda para as inflamações musculares (agora já comprovada empiricamente). Rimos juntas da história da Tia que, logo na primeira parada, deixou metade das coisas e arrancou as páginas e um caderno  – “ah eu nem ia escrever tanto assim”. A Tia, a Carol e a Gabi foram nossa primeira inspiração para começar a sonhar com essa aventura.

Alguns dias depois eu e Oli ligamos para o Ben e a Sara, casalzão maravilhoso que morou em Londres no mesmo período que nós. Na época, curtimos a preparação deles para o Caminho e agora, quase dois anos depois, eles nos ajudavam com a nossa. Eles estão grávidos pela primeira vez e a Sara me escreveu algo especial que divido com vocês:

“Agora na gravidez, ou quando penso no parto, me lembro do Caminho. Uma sensação semelhante de não saber muito bem o que esperar. Se íamos dar conta, o que seria caminhar tanto… tinham tantas incertezas. Iguaizinhas agora. Nada previsível. Mas o que me faz bem é pensar que todos os trechos que aparentemente eram os mais difíceis complicados, que as pessoas alarmavam muito, foram pra gente os melhores! E de longe nem perto do que descreviam.”

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Já era passado da meia noite e ainda não tínhamos conseguido fechar nossas mochilas. Cada uma tinha pelo menos 3kg a mais do que o recomendado, que é entre 10% e 15% do seu peso total/corporal. 

Começamos a pesar cada item na balança da cozinha. Descobri que leggings pesam aproximadamente 250g, um All Star meio quilo e uma escova de cabelo pequena entre 60 e 90g. Se tiver aquele espelhinho embutido, pesa o dobro. 

Tiramos peça por peça de roupa até só sobrar o mínimo possível. Pesamos outra vez, ainda era muito. Deixei o calçado extra. A legging e o vestido ficaram também. A câmera (1kg) veio, mas sem o case e sem a alça supersônica (352g). O caderno teve que ser o de 30 páginas. 

Foi o primeiro dos tantos exercícios de desapego, esse de reduzir o mínimo já previamente reduzido das bagagens. Eu achei até graça, mas a Saletinha estava em um conflito real. Sentada no sofá, ela olhava, analisava e refletia sobre cada coisa, nada feliz em deixar os creminhos, hidratantes, curativos. No final das contas, ela trouxe todas as 5 calças e um belo kit de primeiros socorros que é praticamente uma UTI móvel.

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Acordamos às 6 da manhã e partimos rumo à Estação de Sants para pegar o trem que nos levaria ao início do Caminho Francês. Ainda era noite e as Ramblas estavam vazias sob um céu azul marinho começando a clarear. Mal sabíamos que em poucos dias essas cores do amanhecer nos seriam tão familiares.

O frio da madrugada só não era maior do que o frio na barriga. Estávamos, enfim, começando a realizar o sonho que sonhamos juntas de caminhar os quase 800km em direção à Santiago de Compostela.

Chegando em Saint Jean Pied de Port fizemos nossa credencial de peregrinos, documento oficial que se carimba em todas as paradas para marcar por onde passamos. Também escolhemos nossas conchas e as amarramos nas mochilas. Estávamos prontas para os primeiros 27km.

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